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O escândalo já não choca mais — e isso é o maior problema

Por: Antídio Aleixo Lunelli

20/06/2026 - 07:06

O escândalo do Banco Master deveria indignar o Brasil inteiro. Deveria gerar revolta, pressão popular, cobrança imediata por responsabilização. Mas não. O que se vê é um país anestesiado. E esse talvez seja o retrato mais grave do momento que vivemos.

O problema já não é apenas o escândalo. O problema é que ele virou rotina. Virou mais um capítulo previsível de um roteiro cansado, onde os nomes mudam, mas o sistema permanece o mesmo — viciado, complacente e cada vez mais distante da realidade de quem trabalha e sustenta este país.

O Brasil se acostumou com o absurdo. Acostumou-se a ver dinheiro público envolvido em esquemas nebulosos. Acostumou-se a assistir disputas políticas que ignoram completamente o interesse da população. Acostumou-se a ver autoridades reagindo mais preocupadas em controlar danos de imagem do que em esclarecer os fatos.

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E o mais grave: isso não tem lado. Não é a direita. Não é a esquerda. Não é governo ou oposição. Quando se olha com honestidade, o que se vê é um sistema inteiro contaminado e corrupto. Uma engrenagem que gira para proteger a si mesma, enquanto o cidadão fica do lado de fora, pagando a conta.

Mas é importante traduzir isso para a vida real. Porque não estamos falando de um problema abstrato — estamos falando do dinheiro das pessoas.

Quando um esquema bilionário como esse acontece, o prejuízo não desaparece. A conta é empurrada para alguém pagar. E quase sempre esse alguém é quem tem menos força para se defender.

É o aposentado que vê o poder de compra da sua aposentadoria encolher, corroído por decisões irresponsáveis que aumentam a dívida pública e pressionam a inflação. É o pensionista que depende de um sistema que perde credibilidade e eficiência. É o trabalhador que paga mais impostos, mais juros e mais caro por tudo — do alimento ao financiamento da casa própria.

Enquanto isso, do outro lado, o que se vê é a farra: jatinhos, festas milionárias, viagens extravagantes, estruturas inchadas, contratos suspeitos, mesadas a políticos, apadrinhamentos, contratações milionárias de parentes e aliados. Um ciclo perverso onde o dinheiro sai da base da sociedade e financia privilégios no topo.

Executivo, Legislativo, Judiciário. Cada vez mais, a percepção é de que todos estão, de alguma forma, mergulhados na mesma lógica — a de preservar poder, proteger interesses e relativizar erros.

E quando tudo vira “normal”, nada mais é grave. Essa normalização da corrupção é devastadora. Porque ela destrói o que sustenta qualquer sociedade minimamente organizada: a confiança. Sem confiança, não há investimento. Sem confiança, não há crescimento. Sem confiança, o cidadão deixa de acreditar que vale a pena fazer a coisa certa.

Enquanto isso, quem trabalha continua sem margem para erro. O empresário não pode “explicar depois”. O trabalhador não pode “rever a narrativa”. O agricultor não pode simplesmente ignorar prejuízos. Na vida real, erro tem consequência — e rápida.

Por que, então, com quem exerce poder deveria ser diferente?
O Brasil precisa urgentemente recuperar o senso de limite. Precisa voltar a tratar o errado como errado. Precisa romper com essa complacência silenciosa que transformou escândalos em ruído de fundo. Porque, se nada mais choca, tudo passa. E quando tudo passa, o recado que fica é perigoso: pode fazer, porque não acontece nada.

O caso do Banco Master não é um ponto fora da curva. É sintoma de um sistema que se acostumou tanto a fazer coisa errada que já não reconhece mais o tamanho do problema.

Ou o Brasil reage a isso agora — com cobrança, responsabilização e mudança real — ou seguirá refém de um ciclo onde poucos vivem na abundância da irresponsabilidade, enquanto milhões pagam a conta silenciosamente.

E essa conta, como sempre, não chega para quem fez a festa. Chega para quem trabalha.

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Antídio Aleixo Lunelli

Antídio Aleixo Lunelli é deputado estadual pelo MDB. Fundador do grupo Lunelli, foi prefeito de Jaraguá do Sul.