Certamente, você já assistiu a alguns desses filmes onde a cena se passa num refeitório, geralmente, de prisão. Daqueles onde um novato senta com sua bandeja e, de repente, ouve uma voz dizendo: “Esse lugar é meu!”. Sempre é o mais franzino sentando no lugar do mais apavorante bandido da área. Vira perseguição, o novato se torna escravinho do bandidão. É um clichê dos filmes de prisão americanos, onde assistimos e falamos: “Ah, não força a barra, sempre a mesma coisa”. Sabemos que as prisões brasileiras são bem mais barra pesada que isso, porém, de qualquer forma é um alívio pensar que estamos livres dessa intimidação. Bem, ao menos eu penso isso quando me coloco no lugar de um desses personagens. Principalmente quando o ator é o Adam Sandler, o Rob Schneider, ou o Willl Arnett. Se for um do Stallone (Tango e Cash) aí já é outro papo. Daí é legal ser o novato do pedaço. Enfim, pacato cidadão que sou, sempre me vi imune a tal ameaça. Ledo engano, meus amigos, ledo engano. Dia desses resolvemos bater um churrasquinho de igreja na Rainha da Paz. Chegamos um pouco mais tarde, a maioria das pessoas já tinha saído, o salão estava calmo. Peguei meu filezão caprichado, pão e maionese, nos abancamos e mandamos ver. Quando eu estava atracado no osso do meu filé, tipo cachorro banguela, sinto uma delicada mão tocar-me o ombro. Olhei para trás e avistei uma senhorinha. - Esse lugar é meu. - Desculpe. Como assim? - Eu quero jogar bingo aí. - Tudo bem, já estou acabando. - Te apressa. Quero arrumar as minhas cartelas. - A senhora não quer a mesa ali do lado? - Não. É essa que eu quero. - Tudo bem. Só estou acabando o almoço. - Devia ter vindo mais cedo. (A esposa, que só assistia, interferiu)... - Só um minutinho, dona. - Tem que apurar. E a minha amiga vai sentar aí no seu lugar. Parece brincadeira, porém, mal ela havia acabado de proferir estas palavras, duas outras velhinhas se achegaram. - Eles ainda não saíram da mesa? Acabamos encurtando nosso almoço, afinal, somos todos educados e cedemos o lugar para a turma da terceira. O pior que acabei nem comendo strudel. Tava muito cheiroso. Enfim, recolhemos nossas coisas, nos despedimos e fomos levantando. Mas, ainda não tinha acabado. A velhinha disse: - Espera um pouquinho. Me ajuda a colar minhas cartelas na mesa, por que me atrasei por causa de vocês. E lá estava eu, colando cartelas de bingo para a senhora, olhando fixamente nos olhos dela, para não esquecer sua fisionomia. Não quero correr o risco de estar numa missa e sentar ao lado dela. Vai que ela me faz dar dois pila a mais na hora do ofertório. Mas, eu também não sou bonzinho, não. Roguei-lhe uma bela praga, para que não ganhasse nem mesmo uma caixinha de leite. Mexe com quem tá quieto.