A entrada de Antídio Lunelli no jogo do Senado provocou um abalo sísmico na canhotada estadual. O PT ainda tenta entender o tamanho do estrago político causado pela confirmação da pré-candidatura do empresário e deputado estadual emedebista.
Até então, o partido de Lula trabalhava com a expectativa de que o MDB pudesse ficar fora da disputa majoritária ao Senado em 2026, abrindo espaço para Décio Lima avançar sobre uma fatia relevante do eleitorado emedebista, especialmente no segundo voto.
Mas o tabuleiro mudou.
Com Antídio Lunelli na corrida, formando dobradinha com Esperidião Amin, o cenário embaralha completamente os cálculos petistas. O ex-prefeito de Jaraguá do Sul entra justamente no espaço do MDB moderado, de centro, conservador nos costumes e pragmático na política. E isso atinge diretamente a estratégia de Décio Lima, que sonhava capturar votos órfãos do 15.
Aham
Não por acaso, Décio Lima passou a recorrer, nas entrevistas recentes, a uma verdadeira operação nostalgia.
Ressuscitou figuras históricas do MDB, especialmente Luiz Henrique da Silveira e Casildo Maldaner, numa tentativa quase desesperada de construir uma ponte sentimental com o eleitorado emedebista.
Como assim?
Décio Lima resolveu agora vender a tese de que Luiz Henrique da Silveira tinha alinhamento com a esquerda. Uma forçação de barra monumental.
É verdade que, em 2002, Luiz Henrique surfou parcialmente na onda lulista que levou Lula ao Planalto na quarta tentativa presidencial. Também é fato que o PT apoiou o peemedebista no segundo turno contra Esperidião Amin.
Mas transformar isso em identidade ideológica é reescrever a história política catarinense. Típico dos comunistas nacionais e internacionais.
Pragmatismo
Luiz Henrique era, acima de tudo, um articulador pragmático. Um centrista clássico.
Dialogava com todos os campos, mas nunca pertenceu organicamente à esquerda.
Não vingou
Logo no início do governo Luiz Henrique, houve, sim, uma aproximação com o PT.
Em fevereiro de 2003, o MDB ajudou a eleger o petista Volnei Morastoni para a presidência da Assembleia Legislativa. Num gesto político calculado, Luiz Henrique transmitiu o governo interinamente ao petista durante viagem internacional, levando junto o vice Eduardo Moreira.
Genuinamente
O então presidente nacional do PT, José Genoino, desembarcou em Florianópolis para prestigiar a cerimônia.
Parecia o início de uma aliança estratégica.
Não foi.
Atravessada
A aproximação naufragou principalmente pela resistência interna do PT catarinense.
O então líder petista na Assembleia, Afrânio Boppré, combateu sistematicamente o governo Luiz Henrique.
Extremista
O histórico de Boppré já mostrava um perfil ideológico rígido.
Ex-vice-prefeito de Florianópolis na gestão de Sérgio Grando, carregava a tradição mais radical da esquerda catarinense.
O resultado foi inevitável: Luiz Henrique desistiu do PT e foi buscar o então PFL.
Ovo de Colombo
A ruptura abriu espaço para a construção da aliança entre MDB e PFL em 2006.
Luiz Henrique aproximou-se de Jorge Bornhausen e consolidou Raimundo Colombo como candidato ao Senado na chapa governista.
Ali morreu qualquer possibilidade de alinhamento estrutural entre MDB e PT em Santa Catarina.
Décio Lima sabe disso. Mas, bem ao seu estilo, dissimula, disfarça e faz de conta que não é com ele.
Sério?
Tanto sabe que, agora, faz uma espécie de autocrítica tardia, admitindo que o PT pode ter cometido um erro histórico ao rejeitar a aproximação com Luiz Henrique.
Mas há um detalhe constrangedor nessa narrativa: Afrânio Boppré, o principal opositor daquela composição, hoje está no PSOL — exatamente o partido aliado do PT na atual disputa ao Senado.
Ou seja, Décio tenta condenar o passado sem desagradar o parceiro do presente. Malabarismo de petistas que fazem o diabo pelo poder.
Antídio mudou tudo
O fato concreto é que a entrada de Antídio Lunelli reorganizou o jogo.
Esperidião Amin passa a ter um ativo poderoso: a conexão com o eleitorado emedebista mais tradicional.
Antídio funciona como ponte natural entre os eleitores fiéis do progressista e setores históricos do MDB que jamais migrariam para o PT.
Menos, Décio
Isso reduz sensivelmente o espaço de crescimento de Décio Lima.
Claro, o favoritismo momentâneo ainda recai sobre os nomes mais identificados com o bolsonarismo, como Carol De Toni e Carlos Bolsonaro.
Mas a eleição para o Senado, especialmente com duas vagas em disputa, sempre reserva surpresas no comportamento do segundo voto.
Boa dupla
E é justamente nesse terreno nebuloso que Esperidião Amin ganha musculatura com Antídio Lunelli ao seu lado.
Já o PT segue tentando convencer Santa Catarina de que Luiz Henrique da Silveira era “de esquerda”.
Uma narrativa que nem os antigos aliados do ex-governador parecem dispostos a comprar.