“♫ People are strange when you’re a stranger/ Faces look ugly when you’re alone/ Women seem wicked when you’re unwanted/ Streets are uneven when you’re down” (People are strange; The Doors)
Nos anos 1990, o país assistiu ao emblemático Caso Escola Base, quando donos de uma escola infantil em São Paulo tiveram suas vidas destroçadas após acusações gravíssimas de abuso sexual divulgadas de maneira precipitada. Antes mesmo da conclusão das investigações, já estavam condenados pela opinião pública. A imprensa transformou suspeitas em certezas. A escola foi depredada, reputações exterminadas e vidas arruinadas. Depois descobriu-se que os acusados eram inocentes.
O estrago, porém, era irreversível.
Décadas depois, imaginava-se que aquele episódio teria ensinado algo ao país: cautela, responsabilidade, presunção de inocência, necessidade de apuração séria antes do linchamento público. Falei muito disso nas minhas aulas de responsabilidade civil, e sei que outros professores tanto de Direito quanto de Jornalismo fizeram o mesmo.
E veio o caso do cachorro Orelha.
Indignação coletiva precedendo fatos
Mais uma vez, a indignação coletiva precedeu os fatos. Mais uma vez, pessoas, desta vez adolescentes, foram julgadas instantaneamente por uma multidão sedenta por punição. Mais uma vez, a internet funcionou como tribunal emocional, movido por compartilhamentos, cortes de vídeo, comentários inflamados e certezas construídas em minutos. Chegou ao ponto de autoridade policial ser investigada por improbidade por possível uso do caso em proveito próprio.
A diferença é que, agora, o potencial destrutivo é infinitamente maior.
No Caso Escola Base, dependia-se de jornais, televisão e rádio. Hoje, qualquer pessoa com um celular pode iniciar uma onda de destruição reputacional em escala nacional. Não há filtro editorial, tempo de checagem ou reflexão mínima. A velocidade venceu a prudência. A lógica das plataformas digitais agrava o problema.
Conteúdo que desperta revolta, ódio ou indignação gera engajamento. Engajamento gera alcance. Alcance gera monetização. Em outras palavras: o algoritmo frequentemente premia exatamente aquilo que provoca reação emocional intensa, ainda que baseado em informações incompletas ou falsas.
Industrialização do linchamento moral
Há ainda um componente psicológico relevante. Participar de uma “caça virtual” produz sensação de pertencimento moral. Compartilhar indignação dá às pessoas a impressão de estarem do lado certo da história, mesmo sem conhecer os fatos integralmente. O problema é que a multidão digital raramente pede desculpas depois. É só o linchamento moral em larga escala, mesmo.
A internet não esquece. Prints, vídeos, acusações e insinuações permanecem circulando muito depois da verdade aparecer, mesmo quando alguém desmente o que de fato foi dito. Foi o caso da Escola Base nos tempos analógicos; é o caso do cachorro Orelha dessa era digital.
Em outra escala, isso cria um ambiente perigosíssimo para qualquer sociedade democrática, pois a presunção de inocência, princípio fundamental do Estado de Direito, passa a valer menos do que a viralização de uma narrativa emocionalmente forte.
E há um detalhe inquietante nos tempos atuais: a inteligência artificial tende a ampliar esse problema. Vídeos manipulados, áudios falsos, montagens hiper-realistas e conteúdos produzidos artificialmente tornam cada vez mais difícil distinguir verdade de manipulação. Se já somos capazes de destruir reputações com informações incompletas, imagine quando começarmos a fazê-lo com provas fabricadas digitalmente.
A sociedade está entrando na era em que a aparência de verdade será suficiente para condenar alguém socialmente.
Isso não significa que denúncias não devam ser feitas ou investigadas. Evidentemente devem. Maus-tratos a animais, crimes contra crianças, violência doméstica e tantas outras barbaridades precisam ser combatidos com rigor. Mas combater crimes não pode significar abandonar garantias mínimas de racionalidade e prudência.
O Caso Escola Base deveria ter se tornado um marco permanente de reflexão nacional sobre responsabilidade coletiva, ética jornalística e perigo dos julgamentos precipitados. Pelo visto, não foi suficiente.
Talvez porque o problema nunca tenha sido apenas tecnológico. A internet apenas acelerou algo profundamente humano: nossa atração por julgamentos rápidos, narrativas simples e culpados instantâneos.
O problema é que, quando a verdade finalmente chega, normalmente já encontra os destroços pelo caminho. Ainda bem que ainda existem pessoas que não se dobram à insanidade coletiva.
Tem um ditado que diz: Ainda há juízes em Berlim. No caso do cachorro Orelha, atualizo: Ainda bem que há Ministério Público em Santa Catarina.