“♫ Highway to hell/ I’m on the highway to hell/ No stop signs, speed limit/ Nobody’s gonna slow me down/ Like a wheel, gonna spin it/ Nobody’s gonna mess me ‘round” (Highway to hell, AC/DC)
Há algumas semanas, indo para o trabalho, me deparei com uma cena comum no trânsito, infelizmente. Não, não estou falando daquelas pessoas que trafegam do lado rápido da pista atrapalhando o fluxo, para depois convergirem à direita no final dela. Nem daquelas que estacionam em lugares restritos porque é “rapidinho”. E nem de quem tranca cruzamento sem qualquer constrangimento.
A cena foi de um cidadão que, vindo de uma transversal da esquerda, simplesmente entrou, sem parar, na via principal (de duas pistas). Um burro, deduzo eu, pois deve ter estudado para conseguir sua carteira, e, pelo jeito, não aprendeu as regras mínimas de trânsito. Não um ignorante, um burro mesmo.
Na via principal, porém, vinha, na pista da esquerda (aquela invadida pelo burro), um imbecil. Imbecil porque não bastou, para ele, buzinar e xingar. Ultrapassou (pela direita) o burro e praticamente estancou seu carro na frente do do outro. Birra de criança. O outro errou feio, é verdade, mas para que comprar uma briga dessa no trânsito? Um possível macho alfa demonstrando toda sua masculinidade dentro de um veículo.
A primeira conclusão que cheguei: não vou almoçar no restaurante cujo adesivo estava no veículo do imbecil. A segunda está abaixo.
Carros sem motoristas
Parece uma necessidade carros autônomos, para o bem da humanidade.
Nem soa mais futurista: empresas como Waymo e Tesla (entre outras) vêm testando e implementando sistemas de condução autônoma em larga escala, com resultados cada vez mais consistentes. Em algumas cidades, veículos já circulam sem qualquer intervenção humana direta, tomando decisões em tempo real com base em sensores, câmeras e inteligência artificial.
A promessa é sedutora e, diante do que descrevi para vocês, compreensível. Redução de acidentes, eliminação de comportamentos impulsivos, fim das disputas de ego no trânsito. Máquinas não se irritam, não se vingam, não disputam espaço por orgulho. Não existem “burros” nem “imbecis” ao volante quando não há volante.
Estudos apontam que a grande maioria dos acidentes de trânsito decorre de falha humana: distração, imprudência, excesso de confiança, agressividade. Retirar o fator humano da equação, portanto, vai significar uma revolução gigantesca em segurança viária.
As projeções variam, mas há um consenso crescente de que, nas próximas décadas, haverá um ponto de inflexão em que veículos autônomos superarão os dirigidos por humanos em determinadas regiões e contextos urbanos. Alguns analistas falam em 2035; outros, mais conservadores, em 2040 ou 2050. O fato é que a transição já começou e dificilmente será revertida.
A máquina moral
Mas a substituição do erro humano pelo cálculo algorítmico traz consigo um novo tipo de dilema.
Em 2014, pesquisadores do MIT Media Lab lançaram a plataforma Moral Machine, um experimento global que coloca pessoas diante de decisões éticas envolvendo carros autônomos. Em cenários inevitáveis de colisão, o sistema deve escolher: salvar mais pessoas ou proteger o passageiro? Priorizar jovens ou idosos? Respeitar a lei ou minimizar danos? Já falei dessa plataforma em outros textos. Ela ainda está ativa para quem quiser participar. É simples, tem em português e tenho certeza que você sairá diferente da experiência.