O baile de carnaval no Clube Aristocrático estava começando. A orquestra iniciava os primeiros acordes quando eu cheguei, fantasiada de Colombina. Usava um macacão de seda com losangos coloridos, pompons vermelhos no peito e sapatilhas brancas. Na pintura facial, o contorno preto em forma de estrela em volta dos olhos, a lágrima com purpurina e a peruca ruiva curta me transformaram em personagem de cinema mudo. Me sentia uma boneca de biscuit, daquelas que a gente encontra nas lojas. O ano era 1925 e eu tinha 15 anos, a mesma idade que você! Já se passaram 75 anos, mas lembro de cada detalhe! Hoje é comum as jovens irem abailes com as amigas, mas naquela época... Eram outros tempos... Naquela noite, eu subi as escadas do Clube Aristocrático com grande expectativa. Era o meu primeiro baile carnavalesco e eu não queria perder um detalhe sequer! Eu ficava olhando as roupas das mulheres, os chapéus, os adereços, os colares, pulseiras, anéis... Os homens vestiam fraques, smokings e chapéus de palheta. Dançavam marchinhas e maxixes, soltavam confetes e serpentinas uns nos outros... - Bisa Clara, conta logo! E o mascarado? Pouco depois, eu e os seus tataravós fomos para a pista... Eu comecei a pular e a cantar, transbordando de felicidade. Senti que era observada e me virei para olhar... Ele estava lá, no outro lado do salão, encostado em uma coluna,me observando com um sorriso encantador, estava fantasiado de Zorro. Me lançou um olhar penetrante e um sorriso sedutor que me atingiram como uma flecha. Senti um arrepio na espinha... - E depois?... Desviei o olhar, senti o rosto em fogo. O coração queria saltar pela boca. Quando saí e me dirigi para a mesa, senti que uma mão segurou firme o meu braço direito e me virei. Era ele!Estava com uma rosa vermelha na boca e me entregou, me olhando no fundo dos olhos. Eu tremia. Foi aí que ele me puxou contra o corpo dele e me deu um beijo de tirar o fôlego. Minhas pernas ficaram bambas. Ele me abraçava com força e eu comecei a corresponder, inundada de emoções até então desconhecidas.De repente, me soltou bruscamente, segurou o meu rosto com as mãos e me olhou, mas sem sorrir dessa vez. - Quem é você, perguntei, atônita. Ele me disse que o nome dele não importava, que queria ser lembrado como o “Zorro”que roubou o meu primeiro beijo, numa noite de carnaval... Pronto, já contei! Agora me deixa descansar, querida... - Ah, logo agora? Conta mais um pouco, bisa... Acorda, bisa! Bisaaa! Ai, nãooo!