Fundada há 20 anos, a SCGÁS vem acumulando um crescimento invejável. À frente deste desafio, o engenheiro Willian Anderson Lehmkuhl, presidente da empresa, orgulha-se em apresentar dados que colocam a empresa entre as melhores do país, alcançando o fornecimento em 67 cidades, com 18 mil clientes, chegando a atender 50% do PIB industrial. Ao todo, serão investidos R$ 457 milhões até 2025 na ampliação da rede de distribuição de Gás Natural no território catarinense. O novo pacote de obras é ainda maior do que o anunciado no ano passado, que previa investimentos de R$ 410 milhões. Até o ano de 2025, a Companhia levará o gás natural a 15 novas cidades catarinenses, chegando a 80 municípios atendidos. Esse número representa um crescimento na infraestrutura de rede superior a 40%. Nesta entrevista exclusiva à coluna Pelo Estado, Lehmkuhl adverte que 2022 será marcado por um choque de preço logo em janeiro, mas ressalta que a projeção é de queda a partir do segundo semestre, sobretudo com a inauguração do TGS (Terminal de Gás Sul), na Baía da Babitonga, que aumentará o suprimento do gás e deixará o mercado mais equilibrado e flexível. Confira:

 

Qual o balanço das ações da SCGÁS em 2021 e as projeções para o próximo ano?

A SCGÁS passa por um momento de expansão muito importante, onde a gente recuperou a capacidade de investimento da empresa e passou a executar uma carteira de projetos que se constitui hoje no maior plano de negócios da história da companhia. Isso, apesar da pandemia e de todos os percalços que a gente teve, a gente está entregando R$ 547 milhões em investimentos em quatro anos. Isso é muito importante porque o crescimento da empresa ao mesmo tempo a torna mais eficiente, porque dilui todos os custos, com uma carteira maior de clientes, de volume de vendas. Com isso, a companhia se moderniza, ela cresce e ao mesmo tempo fica mais eficiente a partir de 2019 com retomada dos investimentos que estavam contingenciados por questões de dificuldades regulatórias aqui no estado e até de consenso dos acionistas. A gente conseguiu trabalhar estas travas, demos um passo adiante e agora os resultados estão sendo colhidos e esse ano foi muito especial para a gente.

 

No início do ano, o senhor falava muito na interiorização da empresa. Como ficaram as ações neste sentido?

A nossa maior obra, que é projeto Serra Catarinense, um gasoduto que nasce em Indaial e vai até Lages, ele já está neste momento passando a cidade de Pouso Redondo, iniciando a subida da Serra da Santa e a gente tem outro trecho, pós-Serra, entrando em Alfredo Wagner. Isso mostra o avanço dessa obra, que é a maior de distribuição de gás em curso no Brasil. Como forma de antecipar o atendimento ao mercado de Lages, nós iniciamos o atendimento por caminhões, este ano, então quando essa rede principal chegar a Lages nós já estaremos com uma rede local operando e conectaremos as duas pontas. Esse modelo de antecipação do atendimento através de caminhões, nós vamos replicar no Planalto Norte. Nós conseguimos neste final de ano aprovar na diretoria e no conselho de administração o início das obras, para o começo de 2022, em Três Barras e Canoinhas, atendendo um pólo importante de indústrias de papel daquela região e que enxerga no gás natural um incremento de competitividade no seu processo e nós faremos este atendimento em 2022.

 

Há uma crítica em relação ao aumento do valor do gás natural para o ano que vem na ordem de 45%. A Fiesc se mobiliza contra esse reajuste. Como a SCGÁS recebe essas críticas?

O único fornecedor de gás natural hoje no Brasil é a Petrobras, e nós somos obrigados a ter que lidar com esse monopólio, passando as condições ao mercado. Nós organizamos uma chamada pública para tentar atrair novos supridores, recebemos várias propostas, mas por falta de regulamentação por parte da ANP, os novos supridores não conseguiram acessar o mercado brasileiro ainda. O que acontece nesse momento que pressiona os custos, e de fato a gente prevê um aumento importante para o ano que vem, porém um aumento temporário, é questão do setor elétrico em função da crise hídrica, e por conta com o acionamento de termelétricas. Com isso o consumo de gás cresceu muito no país, o que pressiona preço, mas também, no momento em que estamos com a chamada pública para atrair novos supridores, acontece uma crise internacional porque a própria China também passa por uma crise hídrica e também tem acionado suas termelétricas a gás. Temos um problema geopolítico com a Rússia, que abastece a Europa com gás natural. Ela fez um novo gasoduto para incrementar esse fornecimento, porém, por questão de regulação da Comunidade Europeia, não entrou em operação ainda. Com isso, a Europa tem que comprar gás de outras fontes que não a Rússia, o que faz pressionar os preços. Por isso a gente diz que sim, no primeiro semestre de 2022, nós teremos um choque de preço, de origem internacional, que contamina o nosso mercado interno, mas a partir do segundo semestre do ano que vem já tem projeção de queda. As cadeias de suprimento global foram um tanto “bagunçadas” no contexto da pandemia e tudo que aconteceu no diesel, na gasolina, agora está chegando no gás natural. Porém a gente acredita que tanto é um choque temporário, que estamos continuando a expandir os clientes ligados a rede de distribuição como os postos de GNV, que hoje proporciona ao usuário 50% de economia em relação à gasolina. Isso ficará um pouco afetado no primeiro semestre de 2022, mas volta a se regularizar no segundo semestre. Tanto que a SCGÁS é a terceira distribuidora do país com mais locais de abastecimento, com 137 postos de GNV.

 

 

Foto Divulgação/SCGÁS

“O único fornecedor hoje é a Petrobras, somos obrigados a ter que lidar com esse monopólio, passando as condições ao mercado.”

 

 

O gás natural tem aumentos pré-definidos, ao contrário dos combustíveis fósseis, que sofrem reajuste conforme a oscilação do mercado internacional. O senhor pode explicar como é esse calendário de aumento?

A gente tem os aumentos do gás natural congelados por seis meses aqui em SC. As datas de aniversário dos reajustes são 1º de janeiro e 1º de julho. Então, por um semestre inteiro os preços ficam congelados e os reajustes, para mais ou para menos, acontecem no semestre seguinte. Nós vamos ter de fato um choque de preço no primeiro semestre do ano que vem, muito por contaminação do mercado internacional e do monopólio da Petrobras, mas a partir do segundo semestre não temos novidades. SC vai protagonizar a entrada de novo supridor no sistema de gás brasileiro, que é o terminal de gás natural liquefeito na Baía da Babitonga, o chamado TGS (Terminal Gás Sul). Qual a importância desse terminal? Se a gente considerar que SC consome em valores máximos hoje 2,5 milhões de m³ por dia, esse terminal vai proporcionar 15 milhões, com capacidade imediata, mas a conquista do mercado é progressiva.

 

Mas qual é a capacidade dos gasodutos para atender essa oferta?

A gente trabalha na expansão não só na nossa rede de distribuição, como a gestiona junto à ANP a expansão da malha de transporte, que hoje pertence à TBG, o gasoduto Bolívia-Brasil, que interconectado com a malha do Nordeste e Sudeste, formando um sistema interligado, como na energia elétrica. Entrando com gás adicional em SC, nós poderemos suprir, além do nosso estado, o Rio Grande do Sul, o Paraná e até São Paulo. Ou seja, venda de gás com arrecadação em Santa Catarina, porque ela se dá no ponto de entrada do gás. A partir do segundo semestre de 2022 teremos dinheiro novo em SC, com a ativação do terminal de GNL na Baía da Babitonga. Estamos falando de centenas de milhões de reais quando toda essa capacidade estiver a pleno.

 

Foto Divulgação/TGS

 

“2022 começa com aumento, mas partir do 2º semestre, com a inauguração do TGS, teremos mais oferta e o preço vai cair”

 

 

O consumidor de gás deve ficar atento, então, porque a projeção para o ano é de queda de preço. É isso?

É muito importante explicar isso. Nós vamos começar o ano com aumento de preço e a partir do segundo semestre, com a inauguração desse terminal, o TGS, teremos mais oferta de gás. A gente começa o ano com choque de preço, mas no segundo semestre teremos alternativa de suprimento não só para SC, mas para o Brasil, a partir de SC. Isso muda completamente o jogo deste mercado internacional. Mas precisamos destacar que sendo a Petrobras monopolista, conseguimos negociar uma cláusula de saída: assim que tiver no mercado um outro supridor alternativo, em condições mais vantajosas, os clientes podem migrar para o mercado livre. Então, começamos o ano com choque de preço, mas tão logo tenha alternativa no mercado os clientes podem migrar.

 

Há algum risco de embargo desse processo por conta de licenciamentos ambientais?

Na verdade todo esse projeto está sendo licenciado desde 2015. Então agora nos aproximamos da data de inauguração, porque esses riscos foram enfrentados, mitigados, contornados e estamos agora caminhando a passos largos para o desfecho feliz desse empreendimento.