Não há nada mais chato a quem viaja de avião do que “permanecer sentado até a parada total da aeronave e apagarem-se os sinais luminosos de apertar cintos”. Quando viajar de avião, repare. Mal acabou o zum zum zum que segue o pouso – aquelas vozes e risadas que não quer dizer outra coisa senão “graças a Deus, sobrevivemos!” – e os passageiros já começam a se contorcer, ansiosos, sobre seus apertados assentos. Trata-se de um duelo sem palavras, do qual todos os viajantes participam, e a regra é: quem ainda estiver sentado quando for permitido, sem se levantar, é veado! Não podemos achar que os “apressados” causem um desequilíbrio na sociedade ou ameacem o futuro da espécie humana. O máximo que pode acontecer é o avião dar um solavanco, eles se desequilibrarem, quebrarem um braço, nariz, uma perna ou uma costela – afinal, o problema é deles. Comentando esse assunto creio que, esmiuçando-o, se pode esclarecer muitos comportamentos do brasileiro. Olhando um sujeito de bigode que mais parecia ter engolido uma andorinha, enquanto o rabo ficou para fora da boca, ilegalmente de pé, no corredor, e um outro, calvo com cara de cão de guarda, curvado sob o compartimento de bagagens, entendemos melhor a confusão do brasileiro no que tange à obediência das regras. Como herança dos tempos da escravatura, jamais entendemos que a lei é um código comum, destinado a nos organizar para não nos desorganizar. Só assim todos nós caminhamos em direção à plenitude. O que vemos é a lei como a demonstração de poder de uma pessoa sobre a outra. E o passageiro insubmisso não aceita receber ordens do comissário de bordo, um cidadão que, poucos minutos antes, estava servindo-lhe guaraná e bolachas – e que não menos importante, costuma ser jovem e, normalmente, bem apresentado. Mal ouve o anúncio de permanecer sentado, o rebelado pensa: “quem ele acha que é?!”, então levanta-se e exerce a frase nacionalmente mais conhecida: “afinal, você sabe com quem está falando?!” Caso a voz nos alto-falantes seja da aeromoça, a hipótese permanece validada. “Afinal, vou receber ordens de uma mulher? Eu? Na frente de todo mundo?!”