“♫ Ticking away the moments that make up a dull day/ Fritter and waste the hours in an offhand way/ Kicking around on a piece of ground in your hometown/ Waiting for someone or something to show you the way” (Time; Pink Floyd)
Há um provérbio supostamente chinês que recomenda: não volte ao lugar onde você foi feliz. A frase carrega uma sabedoria melancólica. Não porque os lugares mudem (tudo bem, eles podem mudar também), mas, principalmente, porque nós mudamos. E, quando retornamos, descobrimos que aquilo que nos fazia felizes não existe mais da mesma forma. Ou pior: existe, mas perdeu o sentido.
Essa reflexão ganha contornos mais amplos quando pensamos no mundo anterior à popularização da internet. Houve um tempo, não tão distante, em que o tédio era possível. Esperávamos. Filas não eram silenciosas. Conversas eram longas. Telefonemas tinham hora. Fotografias eram com cuidado para não perder as poses do filme. Notícias com intervalo. A informação chegava, não invadia.
Experiências reais
Não se trata de nostalgia simplista. O passado tinha suas limitações evidentes: menos acesso ao conhecimento, menos democratização de voz, menos oportunidades para quem estava fora dos grandes centros. A internet corrigiu distorções históricas, ampliou horizontes, criou pontes improváveis e acelerou o desenvolvimento humano em escala inédita.
Mas também alterou a textura da experiência.
Antes, a memória era um território íntimo. Hoje, é arquivo público. Antes, a conversa era, muitas vezes, efêmera. Agora, qualquer bobagem é compartilhada e eternizada. Antes, o erro era local; hoje, é viral. Antes, o silêncio era natural; hoje, é suspeito. O mundo digital ampliou possibilidades; mas reconfigurou a forma como sentimos, pensamos e nos relacionamos.
O ditado sobre não voltar ao lugar onde se foi feliz talvez revele algo mais profundo: a felicidade estava ligada a uma cadência diferente da vida. Havia escassez – de informação, de imagens, de estímulos – e isso produzia valor. Um filme era um evento. Um disco era ouvido do começo ao fim. Uma carta tinha peso. A espera fazia parte da experiência.
Tudo junto ao mesmo tempo
Hoje, vivemos sob abundância permanente. Tudo é imediato, acessível, editável. A felicidade tornou-se performática, comparável, quantificável em métricas. A internet deu voz, mas também expôs à competição constante por atenção. Transformou o cotidiano em vitrine. Converteu experiências em conteúdo.
A grande mudança talvez esteja na relação com o tempo. O passado era linear; o presente era vivido; o futuro era expectativa. Agora, tudo acontece simultaneamente. Estamos no jantar e no feed. Na reunião e na notificação. No descanso e na atualização. A fragmentação tornou-se regra.
Voltar ao lugar onde fomos felizes, a infância offline, as amizades sem algoritmos, os encontros sem distração digital, é impossível porque o contexto que sustentava aquela experiência foi dissolvido. A internet não é apenas uma ferramenta; é um ambiente. E ambientes moldam comportamentos.
Éramos mais felizes antes? Cada um tem sua resposta. Talvez apenas a felicidade tenha outro formato. A questão central não é rejeitar o presente, mas compreender o que perdemos na transição, se é que perdemos.
Talvez o verdadeiro sentido do provérbio não seja evitar o retorno físico, mas aceitar que a felicidade não pode ser congelada em uma época. O passado não deve ser idealizado, mas tampouco descartado como irrelevante. Ele pode servir de parâmetro para avaliarmos se estamos evoluindo apenas em eficiência ou também em qualidade de vida.
Não voltaremos ao mundo anterior à internet. Mas podemos decidir que tipo de relação queremos ter com ela e com nós mesmos. Podemos recuperar rituais, silêncios, profundidade. Podemos escolher momentos offline deliberados. Podemos reaprender a conversar sem intermediação. Não é possível voltar ao lugar onde fomos felizes. Mas é possível criar novos.