Meu primeiro amor

Foto: Dean Drobot

Por: Ana Kelly Borba da Silva Brustolin

22/01/2024 - 10:01 - Atualizada em: 22/01/2024 - 10:46

Cresci em uma casa na qual ouvíamos música: no carro e dentro de casa. No espaço comum, tínhamos uma tv, telefone fixo e um toca-discos. Na época, não dispúnhamos de telas individuais e o cômodo principal da casa, cozinha-sala, era cenário para a vida familiar.

Tenho memórias de ouvirmos (e cantarmos ou assoviarmos) música, no fundo das conversas principais ou nas encenações e brincadeiras entre mim e minha irmã; fazíamos a primeira e a segunda voz, dançávamos e explorávamos nossa criatividade.

Na nossa coleção de discos havia os LP’s infantis (narrativas de histórias, Xuxa, Sandy & Junior, e muito mais), contudo lembro-me bem das músicas dos LP’s e fitas cassetes “dos adultos” (Cascatinha e Inhana – Meu Primeiro Amor, Chitãozinho e Xororó, Chrystian & Ralf, Roberto Carlos, Fafá de Belém, e muito mais).

Minha sensibilidade fora alimentada por essas experiências… E, assim, meu amor pela música foi aguçado e ampliado em outras vivências na cidade pequena, como, por exemplo, quando cantei, por alguns anos, no coral infantil (obrigada @maestrorobsonmedeirosvicente e Fagner) e no grupo de jovens. Obviamente, ali já morava meu amor pelas letras, pelas palavras, pelas histórias, pela poesia – e pelo que elas expressavam e eu, às vezes, nem entendia – só verbalizava ou imitava o som.

Naquela época (não muito distante Rsss), além de ouvir, eu amava ler os belos encartes – vários LP’s continham as letras das músicas também -, acompanhando e cantando junto. E foi então que conheci, ouvi e/ou li desde criança Cascatinha e Inhana, Bryan Adams (Heaven), Chitãozinho e Xororó, Chrystian & Ralf, Roberto Carlos, Chicago, Air Supply, Paul Young, Steve Wonder, Fafá de Belém, Milton Nascimento, Chico Buarque, Vinícius de Moraes, Toquinho, Caetano Veloso, Elba Ramalho, Elis Regina, Daniela Mercury, Louis Armstrong, Tracy Chapman, Cyndi Lauper, Roxette, e outros os quais me lembro.

No entanto, houve uma música muito marcante “Meu primeiro amor” que fora ouvida e cantada por nós diversas vezes! Meu pai e minha mãe adoravam e, de tanto ouvir junto, eu sabia cantar essa e outras. Se as histórias de amor costumam ser embaladas por uma trilha sonora, na top 5 da nossa história de amor em família está “Meu primeiro amor”.

Esses dias, eu estava dirigindo e ouvindo a rádio quando essa música começou a tocar e eu cantei junto, sorri… chorei! Ah, para minha surpresa eu ainda sabia cantá-la inteira! A letra, facilmente, saía, gravada nas minhas entranhas de infância.

Após uns dias, em uma festa de aniversário da minha comadre querida, revivi parte da experiência de criança, cantando uma música da Xuxa, “Lua de Cristal”, com outras duas amigas para fazer uma homenagem a ela, embora eu não saiba cantar (nesse caso, havia intenção e não uma preparação Rsss)! A festa estava alegre e animada e os convidados se soltaram, cantando diversas canções, até que o músico dedilhou o início da canção “Meu primeiro amor” e quem saberia a letra?!

Pois é, eu.

No embalo da festa – solta, leve, à vontade e muito emocionada – cantei pro meu pai a “nossa” música, sentindo que, talvez, de algum lugar, ele também estivesse cantando junto comigo:

“Saudade, palavra triste
Quando se perde um grande amor
Na estrada longa da vida
Eu vou chorando a minha dor
Igual uma borboleta
Vagando triste por sobre a flor
Seu nome, sempre em meus lábios
Irei chamando por onde for
Você nem sequer se lembra
De ouvir a voz desse sofredor
Que implora por seu carinho
Só um pouquinho do seu amor
Meu primeiro amor
Tão cedo acabou, só a dor deixou neste peito meu
Meu primeiro amor
Foi como uma flor que desabrochou e logo morreu
Nesta solidão
Sem ter alegria, o que me alivia são meus tristes ais
São prantos de dor que dos olhos caem
É porque bem sei, quem eu tanto amei não verei jamais…”

Que saudade da gente, pai!

“É porque bem sei, quem eu tanto amei não verei jamais…”