Mentir é fácil demais: o caminho entre a Caverna do Dragão e Capitu

foto: Freepik

Por: Raphael Rocha Lopes

16/01/2024 - 10:01 - Atualizada em: 16/01/2024 - 16:07

 

“♫ Quis dar uma volta em todo o mundo/ Mas não é bem assim que as coisas são/ Seu interesse é só traição/ E mentir é fácil demais/ Mentir é fácil demais/ Mentir é fácil demais/ Mentir é fácil demais” (As flores do mal; Legião Urbana).

Hoje em dia é muito fácil mentir. Na realidade, sempre foi. Mentir, é só querer. Mas hoje em dia a mentira tem outra proporção. E outros mecanismos que fazem torná-la mais convincente. A tal inteligência artificial e as redes sociais são aliadas de peso para os mentirosos de plantão, pagos ou não, mercenários ou psiconautas.

Todo mundo já mentiu e todo mundo já foi vítima da mentira. Há aquelas necessárias para o bom convívio (“Esse almoço está incrível, sogra!”) e aquelas que destroem reputações e vidas (como o exemplo do texto da semana passada).

Os algoritmos e a Caverna do Dragão

Os algoritmos das redes sociais são, como já sabemos, perniciosos. Não no sentido da maldade em si, mas no de fomentar qualquer coisa que aparentemente faça sucesso entre os internautas. Afinal, as plataformas das redes sociais vivem dos dados e da publicidade que empurram para seus usuários. Precisam mantê-los, os usuários, presos a elas, tal qual os adolescentes na Caverna do Dragão. Infinitamente ou, ao menos, o maior tempo possível.

Já sabemos o que chama mais a atenção, principalmente nas redes sociais: fofocas (por mais estilo dramalhão mexicano que seja) e tragédias. Tirando, talvez, uma Copa do Mundo, as manchetes dos jornais dificilmente são sobre coisas boas. E os sites e redes sociais também sabem disso. Os algoritmos sabem disso.

Com a polarização política praticamente mundial, distribuir mentiras ou falsos louros sobre políticos (ou pseudopolíticos) conquista boa parte do eleitorado, digo, dos usuários, regularmente desatentos. As hordas compartilham aquelas mentiras, boatos, fake news (tudo a mesma coisa) e se mantêm presas nas redes sociais beligerantemente enquanto seus políticos de estimação viajam pelo mundo, comem bem, bebem bem, as nossas custas, eleitos ou não eleitos (estes por meio dos partidos que pagam tudo com o nosso rico dinheirinho que vai para o fundo partidário, pelo menos no Brasil).

A inteligência artificial, a burrice humana e Capitu

Li em algum lugar que não devemos nos preocupar com o avanço da inteligência artificial, mas, sim, com o aumento da burrice humana. É quase isso. Parece que desaprendemos a duvidar.

Se há pouco tempo se brincava com um “Se não está no Google, não existe”, agora estamos com o calamitoso “Se recebi pelo WhatsApp, é verdade”. O mais impressionante é que a objeção das pessoas é seletiva, principalmente quando se trata de temas políticos: só se duvida se a informação apresentada for discordante do seu ponto de vista ou do seu político. Do contrário, por mais absurdo que pareça, “deve ser verdade e vou passar adiante”.

O ingrediente da inteligência artificial veio tumultuar ainda mais as coisas. Com o aprimoramento dela, vozes e imagens podem ser manipuladas de forma praticamente imperceptível (um pequeno exemplo: no meu perfil do Instagram vocês poderão me ver falando cinco ou seis línguas fluentemente, das quais só uma eu sei mais ou menos).

Logo, está cada vez mais difícil saber se aquela voz é de quem disseram que é ou mesmo se aquele vídeo realmente retrata algo que aconteceu ou, pelo menos, que aconteceu com aquela pessoa que aparece nele.

Tempos difíceis. Precisamos urgentemente reaprender a duvidar, com serenidade e responsabilidade. Dica de leituras para contribuir nesse reaprendizado: Dom Casmurro, de Machado de Assis e 1984, de George Orwell.