Em meio ao clima de transição que vive o país, a semana foi marcada por intensa manifestação do modal rodoviário, do qual somos reféns. Me deixa a mensagem de que, se marchas de panelas nas ruas fazem barulho, caminhões parados nas estradas fazem estrago.

Embora o governo mostre-se letárgico e patético em reagir a essa mensagem, a sociedade, por sua vez, parece ter despertado para a condição constitucional de que “todo poder emana do povo e em seu nome será exercido”. A sensação que me aflora é de que a ‘Ordem e Progresso’ só se dará por meio da insurgência do povo.

Nessa circunstância, nosso lema poderia ser, então, ‘Desordem para o Progresso’. Justifico: quando uma nação, como a nossa, atinge o status de miserável, no sentido lato, uma tensão silenciosa propaga energia coletiva à revelia do Estado, à revelia das leis, à revelia do bem-estar geral. Neste estado de tensão, a ética do medo, seja ela aplicada pelo ‘paredão’ ou ‘dedo em riste’, é sobrepujada pelo ceticismo e desobediência civil.

Por esse prisma, se tomarmos por fundamento o que nos revela Victor Hugo, em sua clássica obra prima “Os Miseráveis”, eu diria que um ‘latente motim’ já se instaurou na consciência dos brasileiros pois, nunca se mostraram tão evidentes na sociedade, “as convicções irritadas, os entusiasmos exasperados, as indignações emocionadas, os instintos de guerra comprimidos, as jovens coragens exaltadas, o gosto pelas mudanças, a sede pelo inesperado...os ódios vagos, os rancores, os desapontamentos, os sonhos vazios, os que esperam de um desabamento uma saída e, finalmente, no nível mais baixo, a turba, essa lama que se incendeia” no seio de nossa sociedade.

Numa nação de miseráveis, cada cidadão, seja qual for sua condição ou classe, carrega consigo porção maior ou menor de “seres que vagam excluídos de tudo, à espera de uma oportunidade, gente sem ocupação, vagabundos das ruas, os desconhecidos da miséria e do nada, os braços nus, os pés descalços”.

Ademais, uma nação miserável dissimula sua miséria mirando, como referência, nações com grau maior de miséria. Acalenta-se com a tragédia de existir alguém pior. ‘Epa lá...temos países com gasolina mais cara do que a nossa’; ‘ei, sossega, temos países mais corruptos que o nosso’. Isso me leva a convicção de que a mais indigente das nações não é aquela miserável por opressão, mas a miserável por opção.

Contudo, olho para o Brasil e já percebo um esgotamento de nossa histórica e reinante condição de miseráveis por opção, deitados em berço esplêndido. Sinto que estarmos fatigados dessa mambembe encenação. Então, que essa nuvem não se dissipe sem uma catastrófica tormenta, mesmo que signifique um passo atrás para em seguida avançarmos, ainda que sem combustível.