Quando nasci na chácara, com o pelo malhado, tinha muitos irmãos. Éramos uma ninhada de 12 filhotes. Imagine! Nossa mãe, cuidadosa e proativa, cavava buracos para nos proteger. Sempre que desconfiava, ou via algo que a deixava alarmada, nos conduzia para o fundo da toca. Ela nos orientou para ficarmos atentos aos perigos da mata, como os caçadores que capturam coelhos por “esporte”, pelo simples prazer de pegar e matar, como se conquistassem troféus. Querem se vangloriar junto aos demais da mesma espécie. Sempre me perguntei: “Que mérito há nisso?!”. Mamãe coelha também nos avisou que muitos agricultores ficam furiosos quando precisamos aplacar a fome buscando comida nas plantações, e por isso costumam perseguir a nossa raça... Ah, e claro, nossa mãe não deixou de nos abrir os olhos para os predadores do reino animal: coiotes, raposas, onças, fuinhas, corujas, gaviões... Era preciso ficar atento à terra e aos movimentos ágeis de quem chegasse pelo ar, em voo rasante. Apesar das recomendações e do zelo maternos, à medida que fomos crescendo, alguns de meus irmãos e irmãs foram desaparecendo: uns tomaram outro rumo, outros caíram em armadilhas... O dono da plantação vizinha um dia flagrou minha irmãzinha comendo brotos de feijão e foi o fim dela... Outros de nós foram parar na panela do dono da chácara... Ao final, sobramos três... Nossa mãe já começava a criar uma nova ninhada e estava na hora de nos despedirmos de mamãe coelha, com guinchados e corações apertados. Não havia outra saída. Eu e meus dois irmãos corremos e corremos, em grandes pulos, rumo ao desconhecido. À certa altura, quando alcancei um lugar com casas próximas umas das outras, me virei para procurar meus irmãos, mas, não os localizei mais... Fiquei arrasado, sem chão... Chorando, me encolhi entre os arbustos e passei a me alimentar. Precisava estar forte para seguir sozinho. Enquanto comia gravetos tenros, algo inesperado aconteceu. Uma menina ruiva, chamada Angelina, de uns oito anos, se aproximou de mim sorrindo. Inicialmente fiquei com medo. Mas ela ficou falando comigo baixinho, chegando de mansinho e acariciando meu pelo com carinho. Me senti tão amado! Angelina me carregou no colo, me levou para a casa dela e falou algo que não entendi muito bem. Disse que eu era o “Coelhinho da Páscoa”, me trouxe cenoura e alface para comer. Agora sou tratado como rei. Todos da casa não poupam agradinhos. Estou feliz, nada me falta. Até passeio pelo jardim! Mas tem horas que me lembro dos meus irmãos... O que será que aconteceu com eles? Espero que tenham tido a sorte de serem tão bem tratados como eu. Se você os encontrou por aí, por favor, me avise, ok?