Lula ganhou projeção no movimento sindical dos anos 1970. Em 1980, participou da criação do PT, reunindo sindicalistas, intelectuais, artistas e militantes de esquerda.
Disputou o governo paulista em 1982 e foi eleito deputado federal constituinte em 1986. A partir dali, o Planalto virou seu destino obsessivo. Quase meio século depois, continua sendo o centro de gravidade do partido.
Três derrotas
Em 1989, chegou ao segundo turno contra Fernando Collor, depois de superar Leonel Brizola por uma diferença estreita. Perdeu.
Em 1994 e 1998, foi derrotado por Fernando Henrique Cardoso, nas duas vezes em primeiro turno. Mais do que enfrentar um candidato, enfrentou a estabilidade proporcionada pelo Plano Real.
O discurso inflamado não venceu a moeda estável. O eleitor sabia o tamanho do alívio de deixar a inflação para trás.
A embalagem mudou
Para vencer em 2002, o PT mudou a apresentação. José Alencar entrou como vice, Duda Mendonça assumiu o marketing e a campanha tratou de reduzir a resistência ao candidato.
Era a construção do “Lulinha paz e amor”. Alianças e profissionalização eleitoral fizeram diferença.
Lula venceu José Serra e, em 2006, derrotou Geraldo Alckmin. O antigo adversário hoje ocupa sua vice-presidência. A política tem dessas coisas.
A volta apertada
Lula fez Dilma sucessora. Em 2018, preso e impedido de disputar, foi substituído por Fernando Haddad, derrotado por Jair Bolsonaro.
Suas condenações foram posteriormente anuladas pelo STF. Em 2022, voltou à disputa e venceu Bolsonaro por pouco mais de dois milhões de votos.
O retorno já não teve a folga de outras épocas. O líder quase imbatível encontrava os limites de um país profundamente dividido.
A magia se desgastou
Com o tempo, Lula foi perdendo a magia. O sedutor messiânico, o pai dos pobres, o homem que dizia falar ao fundo da alma do brasileiro já não provoca o mesmo encantamento.
A propaganda conserva o personagem. A vida cotidiana cobra resultado. O trabalhador não paga supermercado com lembranças de campanha.
O desgaste não apagou sua força eleitoral. Mas tornou muito mais difícil vender, outra vez, a promessa de redenção.
O desempate
Esta é a sétima candidatura presidencial de Lula. Perdeu as três primeiras, em 1989, 1994 e 1998. Venceu as três seguintes, em 2002, 2006 e 2022.
Domingo será a eleição do desempate.
Buscar um quarto mandato, com toda a estrutura federal à disposição, sem estabelecer uma liderança segura revela o tamanho de sua dificuldade.
O poder continua nas mãos dele. O entusiasmo de outros tempos, não.
Antipetismo resistente
O PT conserva um eleitorado fiel. Indiscutivelmente. Mas também carrega uma rejeição persistente, alimentada pelo mensalão, pelo petrolão e pelo desgaste de tantos anos no comando federal.
O antipetismo foi decisivo contra Haddad em 2018. Agora oferece terreno à candidatura de Flávio Bolsonaro.
Para uma parcela do eleitorado, a disputa tornou-se uma cobrança por alternância.
Bondades sem freio
Vieram reajuste do Bolsa Família, medidas tributárias, perdão de dívidas para microempreendedores e a proposta de transporte gratuito nos fins de semana.
O governo empilha anúncios. Crédito, renúncia de receita, promessa e despesa, porém, não são a mesma coisa. A cifra de R$ 350 bilhões exige demonstração.
A pergunta permanece: por que tamanha criatividade justamente às vésperas da urna? A disposição que faltou para resolver problemas parece inesgotável quando o assunto é conservar o poder.
Sem deslanchar
Os levantamentos recentes mostram uma disputa apertada. Não existe vitória antecipada.
Mas a sucessão de anúncios tampouco assegurou a Lula a liderança que o Planalto procura. O presidente continua obrigado a conquistar votos e superar resistências.
Depois de três mandatos, sua biografia já não basta. O eleitor conhece o personagem. Quer saber por que deveria lhe entregar mais quatro anos.
O partido depois dele
Uma derrota atingiria um partido que nunca conseguiu se libertar da dependência de seu líder.
Dilma e Haddad ocuparam espaço, mas nenhum substituiu Lula como referência eleitoral nacional do PT. O caudilhismo cobra esse preço: concentra o comando e adia a sucessão.
Se o sentimento de mudança prevalecer, Lula será mandado para casa. E o PT terá de encarar a pergunta que empurrou durante décadas: o que será do partido sem o seu dono?