“♫ Please, allow me to introduce myself/ I’m a man of wealth and taste/ I’ve been around for a long, long year/ Stole many a man’s soul and faith// Pleased to meet you/ Hope you guess my name/ But what’s puzzling you/ Is the nature of my game” (Sympathy for The Devil; The Rolling Stones)
Nessas pequenas férias, revisitei um livro da biblioteca dos meus pais. É um livro de fotografias que retrata (literalmente) horrores: Segunda Guerra Mundial – História fotográfica do grande conflito, de Charles Herridge.
Logo no início, uma fotografia me chamou a atenção. A legenda dela é a seguinte: “Membros da sociedade nazista estudantil, a Studentschaft, apoderaram-se impetuosamente de uma remessa de livros “não-germânicos” da biblioteca de uma universidade. Em dez dias, em maio de 1933, não menos de 500 toneladas de livros foram queimadas apenas em Berlim”. Você pode ver a fotografia nesse link. Uma cena com muitas nuances e que exige bastante reflexão, pois ela foi apenas uma parte do início do que veio pela frente, e as pessoas simplesmente não podem esquecer disso.
Acredito que se a II Grande Guerra tivesse terminado de forma diferente possivelmente haveria milhões de toneladas de livros queimados no mundo inteiro. Isso, sem dúvida, traria uma limitação cultural e de conhecimento dramática e irreversível.
Mais do que isso. Haveria um retardamento da inovação e tecnologia de, no mínimo, várias décadas. Se seríamos metade da população loiros e outra metade nikkeis, não sei. Mas o mundo, com aqueles governantes ditadores do Eixo, se tivesse vencido, seria pior, muito mais preconceituoso e atrasado.
Livros queimando
Hoje, no mundo democrático, não se vislumbra mais a possibilidade de cenas como aquelas, de livros sendo jogados em fogueiras apenas porque não estão de acordo com alguma linhagem racial ou entendimento ideológico (e aqui não me refiro apenas às ideologias políticas em sentido estrito).
Hoje, no mundo democrático, principalmente no lado Ocidental, as pessoas têm liberdade para escrever e ler o que quiserem (não quero e não estou entrando aqui nas questões que envolvem direitos de personalidade ou crimes contra a honra – trato de ideias e elucubrações naturais da criatividade humana, esta, sim, em sentido amplo e que deve ter sua interpretação de liberdade mais elástica).
Hoje, no mundo democrático, sequer se concebe que universidades ou escolas tenham limitação da sua produção cultural e científica, proibição de obras ou discriminação por divergência de pensamento. Seria absurdo!
Somos livres, afinal.
A transformação social e tecnológica, a inovação e o progresso acontecem justamente quando e onde há divergências de pensamentos, discussão de teorias, teses, antíteses e sínteses. Onde não há apenas preto e branco, mas todas as cores; não há apenas direita e esquerda, mas todas as direções.
O mundo e a humanidade não são maniqueístas. Ou não deveriam ser se quisermos que cenas como a que apontei no início do texto não se repitam. E lembro que a fogueira de livros foi só o começo. Todos sabemos para que serviram os fornos no final.