Todos os dias, todas as noites, ele chega do trabalho, acende a luz da cozinha e põe o cachorro em cima do balcão, perto da janela. Todas as noites, ele escova o animal, que fica espichado, com o rabo entre as pernas, com medo da altura. “Amor, de novo ele está penteando aquela poodle que faz cocô nas calçadas e faz xixi nos corredores”, ouço da vizinha dos óculos de aros grossos, impressionada. Todas as noites, o casal do apartamento da frente bota o bebê só de fraldas sobre o sofá, entrega a ele um boneco de borracha com a cara do Pica-Pau e liga a televisão. Vê-se a mulher passar roupa vagarosamente, enquanto ele toma vodca com coca-cola e gelo num enorme copo e vigia o filho. A vizinha dos óculos de aros grossos acha que eles não são felizes: assistem à Rede Globo sem trocar de canal e ficam horas sem se mover. Há um outro casal de velhinhos que veste pijama antes de cair o sol, um pijama listrado ou xadrez. “Amorzinho, eles já estão de pijamas”, diz a mesma vizinha. Já o advogado da janela de baixo janta de gravata e passa a noite toda de camisa social, cochilando em frente à televisão e às 2h da manhã acorda sem saber qual o nome do bairro que vive, quanto tempo leva para ferver o leite ou se já é hora de ir para o escritório. Às vezes, ele passa um pano no chão da cozinha, e muitas vezes se escora na janela e em voz alta fala palavras jurídicas ao celular. Outro dia estava lendo um livro com Che Guevara na capa. A velhinha do lado assiste ao programa de culinária no volume máximo e nunca tirou o enfeite de natal sobre a mesa da sala. Às vezes, pode-se ver que ela fica espiando o corredor pelo olho mágico, quase sempre quando é sexta-feira ou sábado tarde da noite, quando as moças saem com seus sapatos de salto acompanhadas por rapazes que ficam a falar alto no corredor empunhando latas de cervejas ou latas de energético. Hora do jantar, todas as luzes acesas dos apartamentos vizinhos. No ar, um forte cheiro de cebola e alho na frigideira. De maneira geral, os homens largam as pastas sobre a mesa e abrem a geladeira. As crianças vão dormir cedo por causa da escola, os cachorros se acomodam sobre um pano no canto da sala, praticamente não latem. Quando a esposa se põe entre a televisão e o sofá, quer mostrar ao marido a blusa nova ou o penteado novo. Outra liga para o marido que está viajando e fica na janela a contar o que aconteceu no escritório, nos mais vívidos detalhes, da meia maça que comeu a quem foi demitido, e quem está na lista de demissão. O marido seleciona um filme no Netflix e o casal dorme antes do filme chegar à metade. Amanhã é preciso acordar cedo, fazer o café e tomar banho. A vizinha dos óculos de aros grossos anda de pantufas com orelhas de coelho e lava a louça num longo tempo. Quando chega à noite, ela senta no sofá e começa a ler um livro enorme, provavelmente a Bíblia, em companhia das luzes que vão se apagando uma a uma, até ficar apenas o barulho do caminhão de lixo, da ambulância que passa a toda velocidade e do rádio ligado numa estação sertaneja, do porteiro lá em baixo.