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Garota de Ipanema foi para a Groenlândia (sem sair de casa)

Foto: Freepik

Por: Raphael Rocha Lopes

03/06/2026 - 07:06

“♫ Hot latitudes, cool atitudes/ She’s leaving/ Moon in her mirror/ Chasing northern lights/ She goes. Ahhh” (Girl from Ipanema goes to Greenland; The B-52’s)

Existe algo deliciosamente absurdo no título dessa música. A garota de Ipanema, símbolo tropical brasileiro, indo parar na Groenlândia. É uma imagem, para alguns, improvável, quase surreal, divertida. Mas talvez ela faça mais sentido hoje do que quando foi lançada, em 1986 (essa música virou tema desse texto quando coloquei o LP Bouncing off the Satellites para meu filho escutar esse final de semana). E, assim, lembrei das histórias abaixo.

Há uns doze anos, a holandesa Zilla van den Born fingiu passar mais de um mês viajando pelo Sudeste Asiático. Publicou fotos em templos, restaurantes exóticos, lugares turísticos, mergulhos e quartos de hotel. Amigos e familiares acompanharam a aventura pelas redes sociais. Só que ela nunca saiu de Amsterdã. Tudo foi montado, encenado e manipulado no seu apartamento como parte de um experimento para demonstrar o quanto as redes sociais criam versões idealizadas da realidade.

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Anos depois, a influenciadora dos EUA Natalia Taylor levou a ideia para outro nível de ironia. Simulou uma luxuosa viagem para Bali utilizando apenas cenários de uma loja da IKEA. Quartos decorados, banheiras, ambientes cuidadosamente enquadrados e algumas imagens retiradas da internet bastaram para convencer milhares de seguidores de que estava do outro lado do planeta.

Na época, esses casos viralizaram porque pareciam chocantes. E não foram as únicas. Havia um espanto coletivo diante da possibilidade de alguém construir uma viagem inteira sem viajar.

Brincadeira de criança

Comparado com o que se vê hoje, parecem quase inocentes. Não apenas viagens podem ser simuladas, mas vidas inteiras. Com inteligência artificial, uma pessoa pode criar fotografias em Paris, Londres ou Marte sem sair do sofá. Pode produzir vídeos, entrevistas, encontros, premiações e até memórias digitais de eventos que nunca existiram. Tudo com qualidade suficiente para enganar a maioria das pessoas.

A brincadeira (ou mentira) ficou mais barata. Mais simples e, ao mesmo tempo, mais sofisticada.

Mas, talvez a questão mais interessante nem seja tecnológica. É psicológica. O que leva alguém a desejar parecer que esteve em Bali sem nunca ter ido? Ou a construir uma identidade baseada em experiências fabricadas?

Talvez porque as redes sociais tenham criado um mercado permanente de validação. É preciso mostrar mais do que viver (basta ver os pais mais preocupados em fazer vídeos dos filhos, ficando restritos a um retângulo, do que aproveitar toda a apresentação da turma na escola, com toda a beleza e emoção que isso verdadeiramente traz).

Nessa toada, parece que cada vez mais, para muita gente, não basta ser feliz; é preciso parecer feliz. Não basta viajar; é preciso (re)produzir a narrativa da viagem. A experiência passa a valer menos do que sua documentação. Em alguns casos, menos até do que uma simulação.

Vá para a Groenlândia

A internet transformou a aparência da experiência em um ativo social, o que, de certa forma, não deixa de ser curioso, se for analisado com certa frieza. Curtidas, comentários e engajamento funcionam como pequenas recompensas emocionais que reforçam esse comportamento (lembram do Soma, que falei no texto da semana passada?). O problema é que quando a exposição se torna mais importante do que a realidade, a própria noção de autenticidade começa a se deteriorar (quantos livros poderiam ser indicados partindo dessa frase…).

Zilla e Natalia tiveram que planejar e tomar certos cuidados. Hoje, qualquer Zé Ruela com um celular meia-boca pode fazer algo melhor em minutos.

A garota de Ipanema não precisa ir para a Groenlândia, Tailândia ou França. Basta que pareça ter ido. Quer dizer… para quem acha que curtidas são mais legais do que sentir de verdade…

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Raphael Rocha Lopes

Advogado, autor, professor e palestrante focado na transformação digital da sociedade. Especializado em Direito Civil e atuante no Direito Digital e Empresarial, Raphael Rocha Lopes versa sobre as consequências da transformação digital no comportamento da sociedade e no direito digital. É professor da Faculdade de Direito do Centro Universitário Católica Santa Catarina e membro da Associação Brasileira de Lawtechs e Legaltechs.