Fé, café, cafuné e um câncer chamado ALK.

Foto: Pixabay

Por: Andreia Chiavini

08/10/2022 - 05:10

Era um dia qualquer de maio, ano de 2017 quando Rodrigo chegou com os exames. Ele estava há alguns dias sem voz e todos os tratamentos realizados não foram eficazes. Achávamos que era uma forte gripe. Mas não era. No laudo estava linfonodomegalia em tórax e pescoço. Eu sabia o que isso significava, mas naquele momento meu cérebro não funcionou e não consegui decifrar aquela palavra.

Aos poucos, o corpo vai saindo do estado de choque e voltando para a realidade e nesse momento, um buraco se abriu em baixo dos meus pés. Eu caí, queda livre sem freio e sem conseguir olhar onde eu iria parar. Meu corpo não vivia, a mente não pensava, eu apenas caia. Foram os segundos mais longos da minha vida. Não conseguia aceitar o porquê disso na minha família. Ele só tem 36 anos. Demoramos a entender o que estava acontecendo.

Primeiro vem o medo, depois a revolta, as dúvidas, a coragem e novos exames. O câncer era Carcinoma Pulmonar Não Pequenas Células com mutação genética ALK positivo. Um câncer raro, que acomete 5% das pessoas com câncer de pulmão. Ele não era fumante. Fui pesquisar no Dr. Google, que sem piedade te salva e te condena. Não tem cura e o prognóstico é de 6 meses. Nós teríamos apenas 6 meses juntos, não tínhamos completado nossos 10 anos de casado e nossa filha recém tinha completado 3 anos.

Dessa vez o buraco não se abriu, mas algo tomou conta de mim. O “Por quê?” virou “Pra quê”, e eu tive a certeza que aquele diagnóstico e prognóstico não seria o nosso futuro. Assim começamos a nossa história com esse câncer que nos ensinou tanto. Não é lindo e nem fácil, acordar todos os dias sabendo que você está com a morte sentada ao teu lado. É destruidor. Você apenas respira e enfrenta, fazendo escolhas.

Escolhemos olhar para essa dor e termos um propósito para seguir e depois, seguirmos juntos, um segurando a mão do outro. Pode até ser um ato de heroísmo, mas foi um ato desesperado e consciente em preservar a nossa família. Foi muito esforço, muita dedicação, mesmo quando todos não acreditavam que conseguiríamos. Em meio à dor, sempre conseguíamos uma brecha para termos aqueles momentos que ficou gravado em nós.

Nós Ganhamos com isso, ganhamos vida, ganhamos tempo. Ele viu a nossa filha perder o primeiro dente, ele a ensinou a andar de bicicleta e a viu crescer, a aprender a ler e escrever. Tivemos tempo para comemorarmos aniversários, natais e os dias comuns. Aprendi a gostar de viajar de moto com ele. Permitimo-nos, perdoamos e nos perdoamos. Oferecemos um ombro, um abraço, um ouvido que virava colo. Nos doamos para quem também sofria. Tivemos tempo para rever, aprender, errar e reaprender.

A seguir mais leve, a viver e não a sobreviver. Conectamo-nos com Deus e não nos preocupamos mais com a opinião alheia. Vivemos a pandemia. Os 6 meses deixaram de existir e seguimos com vontade, olhando para frente. Qual outro caminho teria a não ser esse, o de enfrentar com todas os nossas forças para termos tudo isso? Se tivéssemos escolhido outro caminho, se tivéssemos apenas feito o básico, não teríamos vivido momentos mágicos e nem construído memórias.

Nós lutamos para viver momentos de prazer em meio a dor, honramos a nossa história e nos tornamos melhores. Nós perdemos a batalha, apesar de acreditar no milagre, a cura não aconteceu como queríamos.

Ele virou uma estrela, um espírito de luz. Mas curamos a nossa alma, nos libertamos, tivemos fé, longas conversas tomando nosso café e muito cafuné. Nós vencemos uma guerra, aquela que existia dentro de nós. Hoje minha filha, tem em sua memória todos os momentos que viveu com o seu pai. Não é apenas conscientização que devemos ter em auto cuidado. A

consciência deve vir de como seguir diante do problema, seja com você ou com alguém que você ama. De estar junto, acreditar, ter compaixão e segurar a mão. Não importa até onde chegamos, mas se não tentar, se não seguir, o fim teria sido naquele momento. Não teríamos a Fé, o Café e o Cafuné. Teríamos tido apenas a dor.