Assim que Júlia abriu os olhos e percebeu que Beto já havia saído, ficou com uma pulguinha atrás da orelha. Não era possível que ele iria esquecer, pelo terceiro ano seguido, de seu aniversário. Nesse ano, Júlia fez questão de não tocar no assunto, não deixar pistas, não planejar festa, tudo para poder, no final daquele dia, de peito estufado e sangue nos olhos, esbravejar com o esquecido marido. Ela não entedia como, depois de sete anos de casados, Beto, de repente, esquece de seu aniversário. E o pior! O fato se repetiu por mais um ano e, agora, estava partindo para o tricampeonato. Três anos seguidos. Não, não era possível. Tinha alguma coisa errada, Júlia pensava. - Ele deve ter outra. Só pode! (o clássico primeiro pensamento da esposa). Depois de todas essas conjecturas, Júlia decide sair da cama (espumando de raiva) e vai tomar um banho para se acalmar. Beto não podia ser assim relapso, ela era tão atenciosa, planejava festas para o marido, presentes, jantares e, tudo que ele tinha que fazer, em troca, era lembrar o dia de seu nascimento. Só isso! Nem precisava presente. Bem, Júlia voltou atrás nessa última frase. Precisava presente, sim. E um bem bonito. Um que fizesse inveja às amigas. Um que mostrasse o quanto ela era importante para ele. Mas, ao invés disso, ela recebera a ausência, o esquecimento e receberia, mais tarde, o olhar incrédulo das amigas. Júlia chorou. Deu um soco na parede do banheiro e machucou a mão. E ficou com mais raiva ainda de Beto. Mas, ela não podia passar o dia no banho. Tinha que encarar o mundo real e tinha que aceitar o terceiro esquecimento do marido. E tinha que bolar todo seu discurso, colocar em ordem todos os xingamentos que direcionaria ao Beto naquela noite. Na sala de jantar, imagine a surpresa de Júlia ao encontrar um bilhetinho amarelo sobre a mesa, junto de um botão de rosa: “Feliz aniversário, querida! Nos vemos no jantar.” Júlia sorriu. Sorriu por um momento apenas e, em seguida, sentiu-se um pouco ridícula pelos pensamentos e a raiva vã que sentiu até aquele momento. Mas, passou rápido, e ela ficou feliz de novo. E tirou uma selfie com a rosa e disparou no Instagram, no Twitter, no Face, no Snap, no Tsu, no Google+, no Tumblr, no Pinterest e também mandou nos seus grupos de Whatsapp, básico. E agradeceu ao marido via mensagem, que respondeu: “Fique pronta que hoje teremos um jantar especial.” Naquela noite, ansiosa, maquiada, perfumada, Júlia acompanhou seu marido e não acreditou quando viu que Beto lhe havia preparado uma festa surpresa. Suas amigas, pai, mãe, irmão, alguns amigos de Beto, do futebol, que ela nem gostava muito, mas não faz mal, naquela ocasião, quanto mais gente, melhor. Duas amigas do trabalho e a cunhada, todos, em coro, gritando surpreeeeeesaaaaaaa. Aquilo a emocionou. Ela quase chorou, abraçou o marido com força e deu gritinhos com as amigas e ganhou presentes e comeu e bebeu. Em casa, agradeceu ao marido pelo aniversário maravilhoso e inesquecível que teve, foi tirar a maquiagem e deitou-se, realizada. Beto ficou na sala por um instante, sorriu. Ligou seu notebook e o abraçou com ternura e disse: - Obrigado, Facebook. Nunca deixa de me avisar do aniversário dela.