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Esquerda joga a toalha no Sul

Por: Claudio Prisco Paraíso

03/06/2026 - 06:06 - Atualizada em: 03/06/2026 - 06:16

Junho começou e, com ele, a contagem regressiva definitiva para a campanha eleitoral de 2026. Faltam pouco mais de dois meses para o início formal das disputas, considerando que as convenções partidárias ocorrerão entre 20 de julho e 5 de agosto. E, observando exclusivamente o cenário dos três estados do Sul — Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná —, uma conclusão já se apresenta de maneira cristalina: o PT nacional desistiu das disputas pelos governos estaduais e concentrou toda sua estratégia eleitoral nas eleições ao Senado.

A decisão não é casual. Ela parte diretamente do Palácio do Planalto e do próprio Lula da Silva, que escalou três figurinhas carimbadas do petismo para a missão: Paulo Pimenta, no Rio Grande do Sul; Gleisi Hoffmann, no Paraná; e Décio Lima, em Santa Catarina.

O objetivo é evidente: preservar influência institucional em Brasília, especialmente numa Casa que será decisiva para o futuro político do país.

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Brizolismo de volta

No Rio Grande do Sul, o PT aceitou um papel absolutamente secundário na chapa majoritária.

Depois da experiência de 2022, quando Eduardo Leite conseguiu a reeleição derrotando Onyx Lorenzoni no segundo turno (isso depois de quase perder a vaga para um petista) — numa vitória que contou, inclusive, com apoio decisivo do próprio PT —, Lula enquadrou o partido gaúcho.

Posição

Edegar Pretto, que no último pleito quase chegou ao segundo turno, foi deslocado para compor a chapa ao governo.

Na cabeça da chapa aparece Juliana Brizola, herdeira política do ex-governador Leonel de Moura Brizola. Ex-deputada estadual, a neta de Brizola ainda contará na composição com Manuela D’Ávila. Ou seja: o petismo abriu mão de protagonismo no Piratini para tentar assegurar musculatura em Brasília.

Paraná repete a fórmula

O movimento se repete no Paraná. A candidatura ao governo estadual ficará com Requião Filho, do PDT, herdeiro político do ex-governador e ex-senador Roberto Requião, que governou o estado em três oportunidades.

Coadjuvante

O PT novamente aceita posição coadjuvante na majoritária, dividindo espaços com outros partidos de esquerda. E, mais uma vez, a prioridade verdadeira está no Senado. A escolhida é Gleisi Hoffmann, ex-senadora, ex-presidente nacional do PT e que até abril ocupou o Ministério da Articulação Política.

A fórceps

Na eleição passada, percebendo a dificuldade de reeleição numa disputa de vaga única, preferiu concorrer à Câmara Federal. Agora, porém, sua candidatura ao Senado foi imposta pela estratégia nacional do partido. A orientação é clara: abrir mão dos governos estaduais para concentrar energia na Câmara Alta.

SC na mesma rota

Em Santa Catarina, o desenho político é rigorosamente semelhante. Décio Lima foi candidato em chapa pura em 2018, sem coligações. Em 2022, recebeu o apoio integral das forças de esquerda e conseguiu chegar ao segundo turno. Mas sofreu uma derrota esmagadora para o atual governador.

Esquerda fake

Agora, diante da dificuldade estrutural da esquerda catarinense em disputar o governo estadual, o campo lulista buscou uma alternativa fora do PT. Entrou em cena Gelson Merisio. Historicamente vinculado à centro-direita catarinense, Merisio aproximou-se do projeto petista nos últimos anos, especialmente em razão de sua ligação profissional com o grupo JBS e da proximidade extrema da empresa com o governo Lula.

Para a ribalta

Na eleição passada, ele já havia coordenado a campanha majoritária da esquerda em Santa Catarina, na composição que tinha Dário Berger ao Senado e Décio Lima ao governo. Na época, chegou a ser convidado para vice, mas recusou.

Novo cenário

Agora, a situação mudou completamente. Gelson Merisio será o cabeça de chapa ao governo pelo PSB, enquanto Décio Lima disputará o Senado. A composição ainda inclui Afrânio Boppré, do PSOL, e Ângela Albino, inicialmente vinculada ao PCdoB, mas atualmente no PDT, como candidata a vice-governadora.

PDT renasce

O arranjo regional revela um dado político importante. O PDT comandará as cabeças de chapa no Rio Grande do Sul e no Paraná, além de ocupar a vice em Santa Catarina. Foi a fórmula encontrada para manter o brizolismo integrado ao lulopetismo no Sul do país.

Por fora

Mas há um aspecto decisivo nessa engenharia eleitoral: olhando o quadro natural das disputas, nenhum dos três nomes petistas ao Senado aparece hoje como favorito absoluto. Nem Paulo Pimenta. Nem Gleisi Hoffmann. Nem Décio Lima.

Segundo voto

A possibilidade de êxito passa justamente pela pulverização das candidaturas conservadoras e, principalmente, pela tradição histórica do chamado “segundo voto” nas eleições ao Senado — fenômeno que frequentemente infla candidaturas ao longo da campanha e produz surpresas na reta final.

Estratégia nacional

O cenário deixa explícita a estratégia desenhada pelo PT nacional e pelo Palácio do Planalto. Lula retirou o partido das disputas estaduais nos três estados do Sul para concentrar forças numa batalha considerada mais estratégica: o Senado. E não escolheu qualquer quadro para a missão.

Serviço no regime

Paulo Pimenta foi ministro da Comunicação Social e líder do PT na Câmara. Gleisi Hoffmann de trajetória conhecida. Já Décio Lima passou os últimos três anos no comando do Sebrae Nacional, estrutura bilionária, com orçamento próximo de R$ 6 bilhões — superior, inclusive, ao de boa parte dos ministérios da Esplanada.

Proximidade e cumplicidade

Além disso, Décio mantém relação pessoal estreita com Lula da Silva, de quem é compadre.

Agora, resta observar se a estratégia produzirá resultado eleitoral concreto ou se a esquerda apenas oficializou, antecipadamente, sua incapacidade de competir pelos governos estaduais no Sul do Brasil.

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