Nos países do Oriente Médio é tradição os homens se encontrarem num bar para fumar utilizando o narguilé - aquele cachimbo de água - e tomar chá. Chá que às vezes é chá preto, mas normalmente são folhas de hortelã mergulhadas na água quente. Não existe hora do dia para esses dois prazeres. Os grupos, geralmente de três ou quatro pessoas por mesa, pouco falam. O curioso dos árabes é que a conversa entre eles flui por uns minutos e por outros minutos o silêncio domina, e vice-versa. Enquanto nos minutos de silêncio ficam com o olhar para o vazio, parecem a esperar por algo. Debaixo do cheiro adocicado da fumaça dos narguilés existe uma tradição paralela. Num desses bares em Amã, na Jordânia, conheci Armed. 99% dos homens árabes têm um desses nomes: Armed, Marmoud ou Mohamed. Armed é baixinho, barbudinho e tem nariz de águia - quase todos os árabes têm nariz de águia. Se não fosse seu penteado feito com gel - que fica igual a uma manga chupada - ele podia bem lembrar o ex-presidente do Irã - Mohamed Armadinejad, aquele, o amigo do Lula. Armed é um hakawati. Esse nome "japonês" é uma profissão, ou seja, contador de contos, de histórias. Normalmente nos fins de tarde o bar para por umas duas horas ouvindo Armed, que intercala, ficando de pé e sentado. E a testa franzida e os olhos bem abertos dos espectadores demonstram interesse. Agora com quase 50 anos de idade, fazendo isso desde a morte de seu pai, há 16 anos, que também era um hakawati, Armed diz que o público nos tempos passados já foi maior. Diz que as pessoas agora preferem a televisão, antes da vinda da televisão, o rádio. Aprendeu a contar histórias ouvindo seu pai, mas as grandes inspirações são os livros. Diz que leu e releu obras de Hemingway e Gabriel Garcia Marques. Ideias vindas de Hemingway de alguns de seus textos falando de loiras bonitas também entram nas histórias contadas, pergunto. - "Claro que sim", responde Armed. "O amor às mulheres é um dos tesouros do mundo árabe", emenda. Armed, como todos os outros árabes, possuem na sua cultura o amor pelas mulheres como nós temos por algum objeto de extrema estima. É um amor de posse, um amor que sem ele nos faz pensar de como seria viver. Sem pensar, imaginar, ou permitir o que o outro lado tem a dizer ou pensar.