Entre períodos de trabalho, estágio, doutorado e pós-doutorado, eu acumulo um tempo total de cerca de quatro anos de vivência na Alemanha, com destaque indelével ao período do meu estágio profissionalizante pós Engenharia UFSC, entre 1976 e 1978, ou seja, pouco mais de 30 anos do final da segunda grande guerra mundial e quando da avassaladora imigração dos “Gastarbeiter” (trabalhadores estrangeiros), para suprir a falta de mão de obra interna (grande parte, dizimada no confronto bélico).
Desde lá, sentindo o prestígio que o ensino médio possui na Alemanha, brotou em mim a convicção de que uma nação não se desenvolve, apenas formando universitários e pós universitários. Ela cresce, quando forma excelentes profissionais, em todos os níveis, capazes de transformar conhecimento em produtos, serviços e riqueza, incluindo os advindos de ótimos cursos técnicos profissionalizantes de ensino médio.
Aqui vale, então, lembrar a frequente dúvida dos jovens brasileiros – na hora “H” – aparentemente simples, mas que esconde uma enorme complexidade. “Ensino Técnico ou Faculdade?”.
Durante décadas, no Brasil, criou-se a impressão de que existe uma espécie de hierarquia entre as duas opções: quem faz faculdade alcança um nível superior de formação e status, enquanto o ensino técnico é uma alternativa para quem não consegue ingressar no ensino universitário.
Na prática, a Alemanha “passa a lição” de que essa visão não só é equivocada, como pode ser extremamente prejudicial ao desenvolvimento econômico de um país. Pois, bem, vamos entender um pouco mais este “norte”. Quando se fala em Alemanha, normalmente lembramos imediatamente de empresas como Siemens, Bosch, BMW, Mercedes-Benz, Volkswagen, Audi, SAP, BASF ou tantas outras referências mundiais em tecnologia e qualidade. Entretanto, poucas pessoas se perguntam qual é o verdadeiro alicerce que sustenta toda essa excelência industrial. E a resposta não está apenas nas universidades.
Ela está, sobretudo, no seu extraordinário sistema de ensino técnico profissionalizante e pelo fato de que na Alemanha, ser técnico não é motivo de vergonha. É motivo de orgulho. Lá milhares de jovens concluem o ensino médio e seguem diretamente para as escolas técnicas, onde aprendem uma profissão de maneira profundamente prática. Enquanto estudam, trabalham dentro das empresas, recebem salário, aprendem disciplina, convivem com profissionais experientes e compreendem processos produtivos reais.
E, quando concluem sua formação, já possuem experiência prática suficiente para produzir desde o primeiro dia, não precisando descobrir o mercado de trabalho depois de formados, pois já fazem parte dele.
Eis, então, a importância do “conhecimento das mãos”, ou seja, a capacidade de “concretizar” (construir, montar, regular, fazer, programar, operar, resolver, etc.), sem depender da digitação de um excelente texto ou da elaboração de uma bela tese de doutorado. Na realidade, são estes profissionais “das mãos” que fazem a economia de uma nação girar diariamente.
Em resumo, abaixo à falsa ideia de que todos precisam cursar universidade e “raus” (fora!!!) à narrativa de que “quem quer vencer na vida precisa fazer faculdade”. Basta observar, também, outros países industrializados, para perceber que essa lógica não se sustenta mais, ou seja, que nem todos precisam ser universitários. Aliás, muitos sequer desejam isso.
Afinal, há jovens que possuem enorme habilidade prática e gostam de usá-la profissionalmente, de forma que sua vocação aproxima-se muito mais de um excelente curso técnico do que de uma graduação tradicional. E isso não representa nenhum fracasso. Pelo contrário. Pode significar uma carreira extremamente valorizada, em que o “status” virá como reflexo da excelência profissional.
“Ein Prosit” ao Senai e ao IFSC !!!