No meio da empoeirada estrada, latões velhos e ripas de madeira como bloqueio. Na lateral, detrás de sacos de areia empilhados, surgem quatro homens barbudos no estilo de Che Guevara, com bonés padrão Fidel Castro. Magros, usando detonados uniformes camuflados, desabotoados na altura do peito, cada um carregava uma máquina russa de 4,5 quilos com 11 partes móveis, os fuzis Kalashnikov. Pedem meu passaporte, enquanto passam os olhos bem abertos nos outros ocupantes – todos índios, no velho Blue Bird dos anos 1970. Aquele ônibus de bancos inteiriços, que classificamos, nos cinemas e nas ruas, como ônibus escolar. Rangia, roncava e largava uma fumaça para dentro, de dar dó aos passageiros. “Brasileiro? Brasil, terra do melhor futebol do mundo!”, ouço de um. “De agora em diante, nada de fotos”, ressalta outro. Bem-vindo a um território que foi da Colômbia, daqui por diante não se sabe bem de quem é. Mandam aqui os guerrilheiros de um grupo armado ilegal, as FARC – Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. Logo adiante, enormes cartazes de rua, que colocam como se fossem os novos donos de um negócio. FARC – Exército do Povo, anunciava uma delas. Estou no sul do país, próximo do Equador, numa região onde a cordilheira andina não é alta como imaginada, e o verde profundo das florestas da Amazônia começa a dar o ar da graça. Venho para cá com a desculpa de visitar um pouco conhecido sítio arqueológico de uma antiga civilização pré-colombiana, San Agustín. Queria mesmo era conhecer e estar em algum povoado onde o poder paralelo assume o papel de polícia e governo. Depois de acampar próximo às ruínas, numa noite de frio, vento, chuva gelada e penetrante, de congelar os ossos, só sabia que direção tomar: a direção da selva. O primeiro dos escassos Blue Bird que apareceu, tomei. Sacolejando junto com terneiros, cabras, cordas e sacas de fertilizantes, que os indígenas traziam de um dia de mercado num povoado próximo, alcanço Pitalito, a última parada. Pelo caminho, mais barreiras. Guerrilheiros, sempre a perguntar: por que veio?, o que quer ver?, não faltaram. O ponto de carga e descarga do ônibus, como em toda cidadezinha latina do interior, é sempre na frente da igreja católica. Os moradores locais, porém, mostraram-se desconfiados. De facões na cinta cruzavam por mim nas ruas sem me dirigir uma palavra ou olhar. Algo atípico quando se viaja por localidades como essa. Apenas quando fui a um armazém entendi o por quê a presença de um estranho os incomodava. Na parede, uma fotografia de Hugo Chávez, e empilhado num canto alguns quilos de farinha de trigo, de arroz, latas de óleo de soja, uns pedaços de sabão e lâminas de barbear, mantimentos que pertenciam ao freguês que estava na minha frente. Ao pagar a conta, ele colocou um saco de pasta de coca sobre o balcão. O comerciante pesava a pasta para determinar seu valor e devolvia a parte correspondente ao troco. Não imaginava que, mesmo na Colômbia, fosse ver algo parecido com aquilo. “Aqui tudo se paga tanto com notas de pesos quanto com pasta de coca. Aquelas duas moças sentadas em frente ao bordel, para fazer amor com você, irão aceitar pasta de coca também”, diz o comerciante com cicatrizes de balas marcando um de seus braços, num tom de deboche, como se eu tivesse caído de pára-quedas naquele momento, na sua frente. De cabelos fartos e pernas idem, as jovens fugiam ao estereótipo de prostituta de cidade do fim de mundo: cinquentonas, rostos inchados, dois dentes faltando e uma tatuagem de pênis sob um dos peitos caídos. “No bordel simplificam o procedimento; a quantidade de pasta que cabe num pequeno copo de uma dose de bebida é tarifa única”, acrescenta o comerciante. Mais tarde, toda essa pasta é trocada por dinheiro com um traficante.