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Carnaval, imprudência e a epidemia silenciosa nas estradas

Foto: Divulgação

Por: Elisângela Pezzutti

13/02/2026 - 14:02 - Atualizada em: 13/02/2026 - 14:27

Por Dr. Vicente Caropreso
Médico neurologista e deputado estadual

 

Enquanto milhões de brasileiros se preparam para o Carnaval, equipes médicas, socorristas e bombeiros se organizam para outra rotina previsível: salvar vítimas de acidentes de trânsito. A cada feriado prolongado, os plantões se enchem de histórias que não deveriam acontecer. São traumas graves, sequelas permanentes e mortes que, na maioria das vezes, poderiam ser evitadas.

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O Brasil registra mais de 30 mil mortes por ano no trânsito. Entre 2010 e 2019, cerca de 392 mil pessoas perderam a vida em acidentes, algo equivalente à população inteira de Blumenau. Não se trata de fatalidade. Trata-se de imprudência, excesso de velocidade, álcool ao volante e desrespeito às regras mais básicas de convivência nas vias.

Santa Catarina também enfrenta números extremamente preocupantes. O Estado está entre os que mais registram acidentes no país. Em média, aproximadamente 1.700 vidas são perdidas por ano nas estradas catarinenses. Somente nas rodovias federais, no último ano, foram 434 mortes, média de 1,18 por dia, o maior número em nove anos. Motocicletas estiveram envolvidas em quase metade dos sinistros. Outro dado alarmante: apenas em 2025, a Polícia Rodoviária Federal flagrou 4.940 motoristas dirigindo sob efeito de álcool nas rodovias do Estado.

Essa realidade tem impacto direto no Sistema Único de Saúde. Acidentes de trânsito consomem bilhões de reais em internações, cirurgias, reabilitação e afastamentos do trabalho. Como médico neurologista, acompanho de perto as consequências: traumatismos cranianos, lesões cerebrais, perdas cognitivas e motoras que mudam vidas para sempre.

Cada leito de UTI ocupado por um politraumatizado é um leito a menos para cirurgias eletivas. Não é raro que um paciente chegue para um procedimento agendado e receba a notícia de que a cirurgia foi adiada porque a vaga está ocupada por uma vítima de acidente, frequentemente envolvendo motocicleta. É uma cadeia de impacto que atinge todo o sistema de saúde.

Nossa geografia impõe desafios adicionais. Rodovias com relevo acidentado, curvas sinuosas, tráfego intenso e trechos que cruzam áreas urbanas ampliam os riscos. A falta de manutenção adequada e obras que se arrastam por anos agravam ainda mais o cenário.

Há evidências claras de que investir em infraestrutura salva vidas. O Contorno Viário da Grande Florianópolis reduziu de forma significativa o número de acidentes no trecho urbano da BR-101 após sua entrada em operação. Rodovias duplicadas, bem sinalizadas e com traçado adequado diminuem colisões e mortes. Isso não é opinião, é constatação. Por isso defendemos com firmeza a construção da nova rodovia paralela à BR-101, a “Via Mar”, que já possui projeto estruturado e deve iniciar em breve. Trata-se de um investimento estratégico para o futuro logístico do Estado e, acima de tudo, uma medida concreta de preservação de vidas.

Mas engenharia não basta. É indispensável fiscalização permanente, presença efetiva das forças de segurança e cumprimento rigoroso das leis. Precisamos endurecer penalidades para condutas de alto risco. A raiz do desrespeito a normas como o uso da cadeirinha para transporte de crianças está na sensação de impunidade.

Também é fundamental valorizar a formação de condutores. Recentemente, o governo federal retirou a obrigatoriedade da prova de baliza para a obtenção da CNH. Em um país que já convive com índices alarmantes de acidentes, a mensagem transmitida parece ser a de que dirigir pode ser cada vez mais simples, quase intuitivo. Talvez o próximo passo seja confiar apenas na sorte. Ironias à parte, formar motoristas exige rigor técnico e responsabilidade. Flexibilizar critérios não combina com um cenário de guerra no trânsito.

O Carnaval é festa, alegria e celebração da vida. Mas a vida precisa voltar para casa depois da folia. Não podemos naturalizar essa epidemia silenciosa que lota emergências e consome recursos públicos. A sociedade paga um preço alto demais em sofrimento humano e em dinheiro.

É hora de tratar o trânsito como prioridade de saúde pública, com investimento, fiscalização e responsabilidade. Porque nenhuma festa vale uma vida perdida.

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Elisângela Pezzutti

Graduada em Comunicação Social pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Atua na área jornalística há mais de 25 anos, com experiência em reportagem, assessoria de imprensa e edição de textos.