Sempre é igual. Um homem na Alemanha com problemas mentais e armado massacra um grupo de pessoas. Como sempre, nesses últimos episódios; indignação, comoção e o debate sobre posse de armas de fogo. Continuará assim. A boa notícia é que a sociedade não perdeu a capacidade de se indignar. Já na região mais assassina do mundo, a América Latina, parece que a sociedade perdeu a capacidade de se indignar. Transformando assassinatos como parte da vida cotidiana. É alarmante, 42% dos assassinatos no mundo ocorrem na América Latina onde vivem 8% da população mundial. A taxa de homicídios nos Estados Unidos é cinco vezes mais baixa que da América Latina. Ano passado a guerra civil no Afeganistão resultou na perda de 3.238 vidas. É quase a média de assassinatos por mês durante o ano de 2015 no Brasil. No último conflito armado entre palestinos e israelenses morreu um número menor de pessoas que um “sábado quente” em alguma das capitais do Nordeste. Em todo o mundo as taxas de homicídios estão declinando, mas não na América Latina. El Salvador, Honduras e Guatemala têm as maiores taxas de homicídios dos cinco continentes. Em 2015, no Brasil, foram mortas 163 pessoas a cada dia (fonte: Jornal O Globo). No México, 71. O que explica essa propensão de matar na América Latina? As razões oferecidas pelos expertos são muitas e variadas. A pobreza é uma causa sempre mencionada. Mas se seria esta a causa, a China teria que ter muito mais assassinatos que o Brasil. Outros dizem que a culpa é da democracia e que os governos autoritários reprimem com mais rigor os crimes. Mas a Índia, a maior democracia do mundo, e também um dos países mais pobres do mundo, possue taxa de homicídio até mais baixa que a Europa e essa taxa infinitamente inferior a democracias pobres da América Latina. O consumo e o tráfico de drogas também são razões para os crimes. Mas ninguém consome mais drogas que os Estados Unidos. E se falar em tráfico de drogas, o Marrocos é para a Europa o que o México é para o vizinho rico. Mas a taxa de homicídios no Marrocos é muitíssimo inferior ao do México. Esses apontamentos não querem dizer que as drogas, a pobreza, a eficiência da polícia não são fatores importantes. Pesquisas recentes têm encontrado que a desigualdade econômica, o fácil acesso a armas de fogo, ao álcool, baixos níveis de escolaridade, também formam parte desse problema. Não há porque viver com esses números. Não há outra prioridade mais urgente, mais complexa e difícil. Não é um objetivo que só compete aos governantes. É de toda uma sociedade; da igreja, da empresa, da universidade, da televisão, do rádio, do jornal. Viver num mundo de menos assassinatos parece uma esperança ingênua. Mas ingenuidade é não fazer nada a respeito.