Por: Francine Sevignani
Jornalista e mãe atípica. Uma das fundadoras do grupo Teacolho e do grupo Quero Minha Mãe.
Quebrar estigmas, combater o preconceito e construir uma sociedade mais inclusiva são os principais objetivos do Dia Internacional de Conscientização sobre o Autismo, celebrado dia 2 de abril. Não é à toa que a data ganhou um mês inteiro para intensificar as ações, movimento conhecido como “Abril Azul”.
Para quem vivencia o autismo na pele, por ser autista, ou ter um familiar com o Transtorno do Espectro Autista –TEA, como eu, este é o tema das nossas vidas. É o autismo que protagoniza as nossas conversas com os amigos, os desabafos nas terapias e as postagens e discussões na Internet. É o autismo que me oferece o título de “louca” quando preciso mudar a postura, erguer o tom de voz e falar mais alto que muitos médicos, professores e agentes políticos. Uma luta diária, extremamente cansativa, mas necessária para todos os que fazem parte da comunidade, grupo este, que não para de crescer.
Último estudo divulgado pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), dos Estados Unidos, apontou que uma em cada 36 crianças de oito anos foi diagnosticada com TEA nos EUA, em 2020. No Brasil, não há um levantamento tão específico, no entanto, o número de diagnóstico só aumenta. E se por um lado, com este aumento também falamos cada vez mais sobre o transtorno, suas características e tratamentos, por outro, nos deparamos com falas mais frequentes do tipo “hoje todo mundo é autista”.
Mãe de três crianças com TEA, essa é uma das frases que mais escuto, acompanhada da afirmação convicta de que meus filhos “não têm cara de autistas”. Sim, um verdadeiro exercício de paciência que nos é colocado goela abaixo, às vezes por falta de informação, outras por pura maldade mesmo.
Por isso, e por muito mais, que debates sobre o autismo são tão importantes. Para combater a ignorância, o capacitismo e o preconceito. Para oferecer mais respeito, empatia e políticas públicas eficientes.
Direitos não são favores
Por falar em políticas públicas, além da luta para manter a própria saúde mental equilibrada, outra briga constante de pais de autistas é a pela inclusão, de verdade. Aquela que só acontece por meio de políticas assertivas e que vai além da romantização que muitos agentes políticos fazem..
Um dos melhores exemplos como política que funciona é a Lei Berenice Piana (12.764/2012) que fixou as diretrizes da Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista. A mesma estabeleceu que autistas são consideradas, para todos os efeitos legais, pessoas com deficiência, garantindo por exemplo, punição ao gestor escolar que recusar a matrícula de aluno autista.
Já em Santa Catarina temos a Lei 18.972/2024 que trata sobre o diagnóstico tardio do autismo em adultos e idosos. Afinal, o autista não deixa de ser autista quando cresce, não é mesmo?!
São leis que dão certo, mas que ainda não são suficientes. Mais do que a matrícula garantida, é necessária uma educação inclusiva, que gere aprendizado. Mais que disponibilidade a terapias, é preciso a garantia de acesso a elas. Mais que fila preferencial, é preciso compreensão de toda uma sociedade.
Lembre-se: promover apenas a visibilidade do TEA não é o suficiente. Utilizar símbolos do infinito e do quebra-cabeça, não é suficiente. Ter discursos emocionantes e impactantes, não é o suficiente. É preciso ação, sem demagogia e sem autopromoção.