Acabou-se a quaresma. Num piscar de olhos, fomos do allah-la-ô para o aleluia. Para os católicos, ali se inicia um ciclo de rituais e celebrações que finaliza com o Domingo de Ramos, o Lava-pés, a Sexta-feira Santa, o Sábado de Aleluia e, por fim, a Páscoa. Claro, a páscoa não é celebração exclusiva dos católicos, tantas outras religiões celebram esta data, inclusive religiões modernas, como a Nestlé, a Kraft Foods, entre outras marcas devotas do Santo Cacau. Como se diz no comércio, a Páscoa é o Natal dos chocolateiros. O Natal é tido como o apogeu do comércio. É quando os lojistas percebem que valeu a pena toda correria do ano. Que as tantas horas extras do “horário especial de Natal” renderam um a mais. Como dizia a minha vó, é quando o vendedor pode forrar a cartucheira. Cada segmento do comércio aguarda, ansiosamente, a sua vez. O seu Natal. O Dia dos Namorados é o Natal das pizzarias, Dia de Finados é o Natal das floriculturas, o Dia dos Pais é o Natal da Lupo, o Carnaval é o Natal da Jontex, Doze de Outubro é o Natal dos fabricantes de brinquedos, todo domingo de futebol é o Natal da Ambev, protesto contra a Dilma foi o Natal dos fabricantes de panelas, volta às aulas é o Natal das papelarias, Ano Novo é o Natal a Sidra Cereser e o Dia das Mães dizem ser o segundo Natal do ano, mas podemos considerar que o Dia das Mães é o Natal de O Boticário. Enfim... A Páscoa, sendo o Natal dos chocolateiros, é a hora de quem manipula o Ouro Marrom, a tentação em tabletes, o pedaço do paraíso na Terra, forrar a cartucheira (sim, o chocolate é tudo isso e mais um pouco, mas, devemos sempre comprar as marcas que não usam trabalho escravo infantil nas fazendas cacaueiras na África – ou em qualquer lugar do mundo). É o momento mágico da multiplicação. Ou melhor, da supervalorização. É quando você paga cinquenta reais por um kinder de cem gramas, ou por um ovo de Bis, ou vários outros ovos que nos permitiriam comprar uma grande quantidade de barras de chocolate com o mesmo valor. Lógico, com os ovos de páscoa custando os olhos da cara, temos que achar alternativas, para que a Páscoa não se torne, além de tudo, o Natal das operadoras de crédito. Se for presente para criança, não tem jeito, precisa resolver a pendenga antes do domingo. Daí, ou morre com cinquentão (no mínimo), ou faz uma cestinha, como fazemos lá em casa. Os afilhados ficam felizes e casquinha de amendoim é bem mais barato que chocolate. E se for pra esposa/marido, ou pessoas próximas, até dá para dar um perdido e tentar comprar um ovo com preço promocional, na segunda-feira, na Americanas. Se preferir, pode dizer que tá escondido. Tá tão bem escondido que o sujeito só vai encontrar o ovo na terça-feira. Afinal, o Natal do consumidor é quando acontece liquidação.