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A nova era da escravidão

Foto: Freepik

Por: Raphael Rocha Lopes

27/05/2026 - 07:05

“♫ Eh, oh, oh, vida de gado/ Povo marcado, eh!/ Povo feliz!/ Lá fora faz um tempo confortável/ A vigilância cuida do normal/ Os automóveis ouvem a notícia/ Os homens a publicam no jornal” (Admirável gado novo; Zé Ramalho)

No mês em que o Brasil comemora a abolição da escravidão, costuma-se olhar para o passado com uma mistura de vergonha histórica e sensação de distância, como se fosse apenas uma página encerrada do século 19, confinada aos livros, às fotografias antigas e às aulas de história.

Evidentemente, nada se compara à brutalidade da escravidão real sofrida por milhões de pessoas negras sequestradas, comercializadas e submetidas às violências física e psicológica, e à desumanização absoluta. Qualquer comparação exige cuidado e respeito histórico.

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Mas talvez exista uma reflexão contemporânea possível: nunca houve tanta gente aparentemente livre vivendo em estado permanente de submissão. Só que, agora, sem correntes visíveis.

Falsa liberdade

A tecnologia prometeu liberdade e, em muitos aspectos, entregou. Trabalhar de qualquer lugar, comunicar-se instantaneamente, acessar informação ilimitada, empreender, automatizar tarefas. Tudo isso ampliou possibilidades humanas de maneira impressionante.

Mas, com essa liberdade, veio um novo tipo de aprisionamento. Silencioso, voluntário e socialmente premiado.

Milhões de pessoas acordam e dormem sob comando de notificações. Organizam o humor pelos algoritmos, medem autoestima por curtidas e transformam atenção em moeda existencial. O celular tornou-se extensão do corpo. Em alguns casos, quase da identidade.

Não deixa de ser curioso (repito, com o respeito que a História merece) que os antigos senhores precisavam vigiar seus escravizados para impedir fugas e que hoje muitos carregam espontaneamente no bolso o instrumento de vigilância que monitora localização, preferências, desejos, medos e até padrões emocionais. E pagam por isso.

Lógica invertida

A lógica da escravidão clássica era a exploração da força física. A lógica atual é a exploração da atenção e do tempo. Plataformas digitais disputam segundos da vida humana como se fossem ouro. E, para elas, realmente são.

O problema é que essa dinâmica altera profundamente a vida cotidiana. As pessoas trabalham mais, descansam menos e muitas delas nunca se desconectam completamente. O expediente não termina. E se não for trabalho, é a comparação social que não termina. O fluxo de estímulos não termina. Há sempre mais conteúdo, mais indignação, mais notificações. E tem a rolagem infinita, que como o próprio nome diz, não termina.

Há também uma escravidão emocional curiosa nas redes sociais. Muitos já não conseguem viver experiências sem convertê-las imediatamente em conteúdo. Viagens, refeições, relacionamentos, dores e alegrias passam pelo filtro da exposição permanente. A validação externa se transforma em necessidade psicológica.

Talvez o aspecto mais sofisticado desse novo modelo de submissão seja justamente a ilusão de autonomia. Diferentemente da escravidão tradicional, ninguém obriga fisicamente alguém a permanecer conectado. E tudo é construído para parecer escolha pessoal.

Os algoritmos não usam chicotes, usam dopamina. Não impõem silêncio, impedem-no. Não aprisionam corpos, capturam mentes. E isso produz uma sociedade que raramente descansa de verdade, raramente reflete profundamente e cada vez mais terceiriza comportamento, memória e até pensamento para sistemas digitais.

As curtidas e os vídeos curtos são a Soma do Adorável Mundo Novo, de Aldous Huxley, uma droga que garante felicidade imediata, uma clara ferramenta de controle social. Mas isso é só no livro. Aqui, na vida real, as pessoas conseguem discernir, óbvio. Até porque não é o Estado o escravagista, como no livro. Agora são as grandes plataformas. E está tudo bem!

De toda forma, a ironia histórica é amarga. No passado, lutava-se pelo direito à liberdade física. Hoje, é necessário reaprender a lutar pela liberdade mental.

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Raphael Rocha Lopes

Advogado, autor, professor e palestrante focado na transformação digital da sociedade. Especializado em Direito Civil e atuante no Direito Digital e Empresarial, Raphael Rocha Lopes versa sobre as consequências da transformação digital no comportamento da sociedade e no direito digital. É professor da Faculdade de Direito do Centro Universitário Católica Santa Catarina e membro da Associação Brasileira de Lawtechs e Legaltechs.