Os ventos modernos vêm aos poucos estremecendo pilares que definiam o que seria uma vida exitosa, plena e feliz: casar, ter filhos, comprar uma casa, um carro, crescer na carreira e envelhecer com elevadas doses de saúde e dinheiro.
Nas últimas décadas, essa noção foi sacudida pela ideia de que “lombadas e bifurcações” no clássico roteiro podem ser muito bem-vindas, o que, felizmente, acabou suavizando a pressão.
Sim, pois com o advento das redes sociais, em que muitas pessoas “artisticamente” se exibem – sempre rindo, viajando, festejando – fica ainda mais evidente que um permanente estado de felicidade é algo sabidamente inalcançável, tal como já advertia o “pai da psicanálise”, Sigmund Freud (1856-1939).
Quanto a isso, o psicólogo israelense Tal Bem-Shahar, autor do recém-lançado best-seller Happy Habits, reforça: “uma das maiores barreiras para ser feliz é a crença de que a vida real não tem emoções dolorosas”. Ou seja, há que se fugir da tirania de que é preciso se estar sempre bem. Afinal, tristeza, raiva, inveja e frustração são sentimentos inerentes à condição humana e fundamentais para o fortalecimento da mente.
Sintomaticamente, na era da felicidade performática, nunca se falou tanto em bem-estar, propósito, autocuidado, saúde mental e realização pessoal. Contudo, simultaneamente, nunca se viu tanta ansiedade, comparação social e sensação de vazio. Assim, a felicidade, que deveria ser uma experiência íntima e subjetiva, tornou-se produto, meta pública e até instrumento de marketing pessoal.
Venturosamente, a chamada “felicidade real” surge como contraponto a esse fenômeno. Ela não se constrói em filtros, nem em frases prontas de autoajuda. Não é euforia constante, tampouco ausência total de problemas. É algo mais profundo, mais silencioso e, paradoxalmente, menos espetacular.
Ou seja, a ideia de que ser feliz significa estar sempre animado, sorridente e positivo é padrão inatingível, pois a vida é feita de contrastes: perdas, frustrações, conflitos e incertezas. Ainda, a psicologia contemporânea mostra que emoções negativas não são falhas do sistema, são mecanismos naturais de adaptação: a tristeza ajuda a elaborar perdas, o medo protege e a raiva pode sinalizar limites violados, de forma que negar essas emoções, em nome de uma felicidade artificial, gera um efeito colateral perigoso: a culpa por não estar feliz o tempo todo.
Em resumo, a “felicidade real” não exclui a dor: com maturidade emocional, nunca euforia contínua, as duas podem conviver juntas.
Este entendimento ajuda a enfrentar algo que as redes sociais amplificaram: a comparação silenciosa, agora não apenas com vizinhos ou colegas, mas, sim, com versões “editadas” da vida de milhares de desconhecidos e suas viagens perfeitas, seus corpos impecáveis, suas carreiras meteóricas e suas famílias sempre sorrindo, cenários estes, que criam a ilusão coletiva de que todos estão vivendo melhor do que nós, algo que corrói a paz interior.
A tal “felicidade real” é menos barulhenta do que imaginamos. Não costuma ser exibida; é sentida. Não depende de aplausos, depende de coerência e nasce do equilíbrio entre propósito, relações autênticas, autoconhecimento, saúde mental e gratidão. Ainda, não é permanente e imutável – oscila, como tudo na vida. Mas tem base sólida.
Por tudo isso, a “felicidade real”, talvez, seja justamente aquela que não precisa ser anunciada. Ela se manifesta em pequenas escolhas diárias, alinhadas aos próprios valores.
E, para fechar… metaforicamente, a “felicidade real” não é uma “vitrine” iluminada. É uma “casa” construída com fundamentos consistentes: simples por fora, mas segura por dentro.