“♫ Should I stay or should I go now?/ If I go there will be trouble. And if I stay it will be double…” (Should I stay or should I go; The Clash)
O tema dessa icônica música do The Clash, de 1982, era um relacionamento que parecia não fazer mais sentido. Agora, mais de quatro décadas depois, a pergunta é a mesma, mas em outro contexto: permanecer na bolha digital ou sair dela? Embora para alguns a resposta pareça simples, não é.
As redes sociais nunca se preocuparam em aproximar pessoas que pensam diferente. Na verdade, sempre quiseram manter usuários conectados pelo maior tempo possível. Então, descobriram rapidamente que existe um caminho muito mais eficiente do que promover o diálogo: confirmar convicções.
É muito mais confortável receber conteúdos que reforçam aquilo em que já se acredita do que ser confrontado por ideias diferentes. O algoritmo sabe disso. E aprende cada vez mais rápido. Uma curtida, um compartilhamento, alguns segundos extras assistindo a um vídeo e pronto, a máquina conclui quem é seu “eu digital” e começa a alimentar essa versão de forma quase exclusiva.
E o mundo vai encolhendo…
Não porque existam menos informações disponíveis. Nunca houve tanto conhecimento acessível. O problema é que cada pessoa passa a enxergar apenas um pequeno recorte desse universo, cuidadosamente selecionado para confirmar suas preferências, indignações e certezas.
É como morar em uma cidade onde todos os jornais concordam com as mesmas ideias, todas as emissoras de rádio tocam as mesmas músicas e todos os vizinhos pensam exatamente da mesma forma. Em pouco tempo, qualquer opinião divergente deixa de parecer apenas diferente. Passa a parecer absurda.
Talvez esteja aí uma das principais explicações para a crescente polarização. Não necessariamente porque as pessoas tenham se tornado mais radicais, mas porque deixaram de exercitar uma habilidade fundamental da convivência humana: ouvir sem a obrigação de concordar.
Democracia, discordâncias e inferno
Discordar nunca foi um problema para a democracia. O problema começa quando o simples contato com uma opinião diferente passa a ser visto como uma agressão.
Se por um lado a transformação digital democratizou o acesso ao conhecimento, aproximou especialistas de milhões de pessoas e permitiu que vozes antes invisíveis fossem finalmente ouvidas, por outro trouxe um desafio inédito: pela primeira vez na história, uma máquina é capaz de aprender, em detalhes, quais argumentos provocam entusiasmo, medo, raiva ou satisfação em cada indivíduo, entregando exatamente a dose necessária para mantê-lo conectado.
O resultado é uma curiosa inversão. A internet, criada para ampliar horizontes, vem frequentemente estreitando-os. As redes sociais, concebidas para conectar pessoas, estão separando grupos. Parece que está cada vez mais fácil conversar com alguém do outro lado do planeta e mais tão difícil conversar com o vizinho que vota diferente, torce para outro time ou pensa de outra maneira sobre qualquer assunto.
Isso não significa que toda opinião mereça respeito irrestrito. Há ideias incompatíveis com a dignidade humana, sustentadas por preconceito, violência ou desinformação deliberada. Mas entre a concordância absoluta e a demonização de quem pensa diferente existe um território fértil chamado diálogo. Só que o mato está crescendo rápida e perigosamente nesse terreno.
E o mais interessante, meu caro leitor, é que você provavelmente conhece algumas pessoas assim radicalizadas e que não se enxergam dessa maneira, que acreditam piamente que a outra parte está errada em tudo por causa de um pensamento específico ou que ela própria tem sempre razão, mesmo sem ser especialista no assunto. Às vezes você encontra essa pessoa diariamente quando olha no espelho. Afinal, como disse Sartre, o inferno são os outros.