“♫ Entre um rosto e um retrato, o real e o abstrato/ Entre a loucura e a lucidez/ Entre o uniforme e a nudez/ Entre o fim do mundo e o fim do mês/ Entre a verdade e o rock inglês/ Entre os outros e vocês/ Eu me sinto um estrangeiro/ Passageiro de algum trem/ Que não passa por aqui/ Que não passa de ilusão” (A revolta dos Dândis, Engenheiros do Hawaii)

Semana passada uma parte da população mundial ficou escandalizada e outra ficou animada com as fotos do Papa Francisco vestido estilosamente com um casacão branco, tipo rapper, talvez. Os mais conservadores acharam absurdo um papa se vestir de maneira tão moderna; os menos, gostaram da ideia dessa possível aproximação ao vestuário popular.

Uns dias antes, também chocaram o mundo as fotos da prisão do ex-presidente dos EUA, Donald Trump, inclusive enfrentando os policiais; e depois, vestido com roupas alaranjadas, já na cadeia.

O embasbacamento, contudo, não tinha razão de ser. Nenhum dos dois episódios aconteceu: foram resultados de programas com inteligência artificial (IA). Melhor pensando, o embasbacamento fica por conta do realismo dessas imagens. A que ponto chegará essa tecnologia?

Papas, políticos e o cidadão comum

As fotos do Papa e de Donald Trump impressionaram pela qualidade. Muita gente caiu na brincadeira acreditando, realmente, que fossem as respectivas pessoas. Nessa linha, daqui a pouco podem aparecer outros papas e outros políticos em cenas bacanas, patéticas ou suspeitas.

Em relação a autoridades ou pessoas famosas há uma chance maior de reverter, pois, em tese, suas agendas permitem provar se estavam ou não em determinado lugar ou fazendo certas coisas. Todavia, sempre haverá os que acreditarão eternamente na veracidade da mentira, principalmente se estiver alinhada às suas próprias convicções.

Mas, e se for um cidadão comum? Você que está lendo, por exemplo? Como provar para sua mulher ou seu namorado que não era você naquela foto comprometedora com alguém desconhecido?

Das deep fakes às fake news

Se já há uma pandemia de fake news pelos mares da internet, compartilhadas especialmente pelos aplicativos de mensagens e pelas redes sociais, mesmo quando se trata de informações bizarramente distorcidas ou inventadas, qual impacto esperar quando começarem a pulular imagens montadas por programas ou plataformas com IA?

Até agora as deep fakes – como são conhecidos os vídeos e fotos manipulados – eram privilégio (?!) de poucos. Com o avanço e o barateamento da tecnologia, imagens na linha dessas do papa e do ex-presidente serão corriqueiras.

E como fazer para convencer aquelas pessoas que, ingênua ou maldosamente, compartilharem imagens e vídeos de pessoas ou situações que são montagens?

Educação digital nas escolas é fundamental e o caminho mais rápido para que, pelo menos as próximas gerações, não sejam alvos e vítimas fáceis da manipulação digital que está permeando a internet, principalmente quando se trata de política. Não se admirem se, em breve, receberem um vídeo de um Lula com dez dedos nas mãos tomando banho de piscina como um Bolsonaro sem cicatriz na barriga...

P.S.: A imagem que ilustra este artigo foi gerada por Inteligência Artificial