“♫ Do ponto de vista da terra quem gira é o sol/ Do ponto de vista da mãe todo filho é bonito/ Do ponto de vista do ponto o círculo é infinito/ Do ponto de vista do cego sirene é farol” (Ponto de vista, Casuarina).

Dizem que quanto mais uma pessoa estuda, mas ela descobre que sabe pouco. Há estudos, inclusive, que atestam que pessoas com muito conhecimento tendem a se subestimar, e as que sabem menos, a acreditar que dominam muito os assuntos. É o tal efeito Dunning-Kruger.

Com esse nome desde 1999, tem-se visto muito deste efeito nestes tempos de pandemia, seja sobre a doença em si, seja sobre economia, seja sobre política. Segundo os pesquisadores David Dunning e Justin Kruger, o ser humano normalmente se acha melhor do que realmente é e, quanto menos sabe, mais vai achar que sabe.

Isso me lembrou um pensamento filosófico e um ditado popular. Reputam (com controvérsias) a Sócrates (pelas narrativas de Platão) a frase “Só sei que nada sei”. Do outro lado o dito do povo, que também gosto muito: a ignorância é uma benção.

O prato de comida

E o que um prato de comida nesse papo? Isso já é culpa dos nutricionistas. Qual é a recomendação lúdica mais básicas que nos dão quando perguntamos sobre qual a melhor refeição? Um prato colorido. Um prato que tenha de tudo um pouco: verde, vermelho, marrom, branco. Ou mais ou menos isso.

A justificativa é clara e lógica: quanto mais diversidade no prato, melhor para a saúde da pessoa. Tudo, de preferência, sem exageros.

E o que tudo isso tem a ver com internet?

Não não há mais dúvidas que a internet é um celeiro de muitas pessoas que sabem tudo. Quer dizer, que acreditam que sabem tudo, bem ao estilo do efeito Dunning-Kruger. E não é raro que quando pessoas que realmente têm conhecimento de causa se metem em algumas discussões, acabam sendo crucificadas. Ou, em termos mais internéticos, canceladas ou linchadas virtualmente.

Os sabedores de tudo pululam em todos os cantos da internet, especialmente nas redes sociais e nos comentários de notícias, e falam de todos os assuntos. Dos mais prosaicos aos mais complexos.

Muito disso ocorre por conta do embolhamento a que se submetem. Já falei desta circunstância em outro texto. Quanto mais embolhada a pessoa fica, mais radical se torna e mais gosto pela polarização tem. Simplesmente não consegue mais enxergar outros vieses e nem dialogar sem rancor com interlocutores com outros pontos de vista.

E é aqui que deveríamos nos comportar como se estivéssemos diante de um prato de comida. Consumir de tudo um pouco e com moderação. Sempre existirá algum alimento que nos apraz menos, assim como aquela sobremesa inesquecível.

Se tivermos a consciência de que na internet não é muito diferente, e avaliarmos vários pontos de vista – e não somente sobre aquele que nos agrada – provavelmente seremos, como sociedade, mais tolerantes e compreensivos nas discussões.

Não tenho dúvidas que isso tornará, assim como uma pessoa que se alimenta adequadamente, a sociedade mais forte e mais imune aos vírus da radicalização.