“♫ Dentro de mim sai um monstro/ Não é o bem nem o mal/ É apenas a indiferença/ É apenas ódio mortal” (Pobre paulista, Ira!).

Que as pessoas perderam o respeito e o pudor, especialmente nas redes sociais, não é novidade. Que as pessoas se aprazem em tentar destroçar a imagem e a honra alheias por se sentirem protegidas pelo semianonimato (ou distanciamento físico) que a tecnologia proporciona por meio destas mesmas redes sociais (ou telas, como preferem alguns) também não é novidade.

O contraditório é que a maioria dessas pessoas raivosas das redes sociais, que tripudiam, achacam e atacam, nunca faria isso se estivesse frente a frente com a vítima da verborreia. Em regra, covardes digitais. Os haters.

A conselheira tutelar e a vacina

Recentemente, em entrevista em rádio (veiculada nas redes sociais do apresentador e da emissora), uma conselheira tutelar do município de Jaraguá do Sul, SC, sobre a vacina contra a Covid-19, fez um comentário sobre a relação escolas, pais e filhos, do ponto de vista do Estatuto da Criança e do Adolescente e da proteção do menor, sob sua ótica. Um comentário polêmico, talvez enviesado, mas nenhuma barbaridade.

Nesse momento, foi dada a largada para, como diria o saudoso filósofo e semiólogo Umberto Eco, os imbecis das redes sociais competirem para ver quem destilava mais ódio. Os haters.

Foi assombroso o nível de baixeza e agressão que essa profissional sofreu nos comentários das matérias que trataram do assunto. Assombroso e lamentável. Assombroso, lamentável e assustador. Claro, houve exceções, de pessoas lúcidas discutindo de forma madura tema tão polêmico, contra e a favor da opinião dela.

A mensagem, o mensageiro e a vacina

Desde sempre se sabe que o ataque deve ser à mensagem e não a mensageiro. Ou sabia-se. A regra agora parece ser outra: por falta de capacidade intelectual, a maioria das pessoas ataca a pessoa que faz o comentário, e não debate a ideia em si. Berram e atingem a honra; não existe diálogo, reflexão ou contraposição de argumentos.

O caso da obrigatoriedade da vacinação contra a covid-19 para crianças entre 6 meses e 5 anos, objeto das críticas pessoais da entrevista comentada, é um exemplo da necessidade de discussão madura em qualquer situação.

No portal da Sociedade Brasileira de Imunizações, por exemplo, há dados que podem orientar a reflexão sobre o tema: a covid-19 foi responsável por 5.310 casos de síndrome respiratória aguda grave (SRAG) e 135 mortes entre crianças menores de 5 anos no Brasil em 2023; foram notificados 2.103 casos de Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica (SIM-P) — manifestação tardia da covid-19 — desde o início da pandemia, com 142 mortes no Brasil, sendo 51 casos e uma morte em 2023; um estudo que analisou quase 4% da população pediátrica dos Estados Unidos durante as ondas das variantes Delta e Ômicron demonstrou que a vacinação teve eficácia de 74,3% contra a infecção pelo SARS-CoV-2; 75,5% contra casos moderados ou graves e 84,9% contra episódios que demandam internação em UTI. E há mais dados e informações no site.

É sabido, também, que existem profissionais que não recomendam essa vacinação. É necessário entender suas razões, conversar com seu profissional de confiança, analisar os dados disponíveis e então discutir o assunto.

Utilizei o caso da conselheira tutelar apenas para demonstrar que pouquíssimas coisas são absolutas. Talvez só a morte (e com a tecnologia, em breve, nem ela). As discussões, especialmente no que se refere à saúde, deveria estar despida de fanatismo ideológico. As pessoas deveriam compreender por que existem dois lados; às vezes três, quatro ou mais. E, com as informações, tomar as decisões ou os partidos que mais lhes pareçam coerentes.

Infelizmente, pela falta de filtro, de leitura, de reflexão, tem muita gente se baseando em achismos – em alguns casos, em achismos dos outros. São normalmente aquelas mesmas pessoas que passam para a agressão moral, justamente por não terem qualquer embasamento que possa sustentar uma discussão razoável sobre o assunto em questão, seja qual for o tema, transformando-se em haters (ou odiadores) da internet.