Os ventos da guerra mudam de direção

Colunistas

Por: Pedro Leal

terça-feira, 04:28 - 09/02/2016

Pedro Leal
Pela primeira vez em cinco anos, o governo de Bassar al Assad tem retomado território na Síria. Ao mesmo tempo, o Estado Islâmico vem sendo forçado pelos ataques aéreos da Rússia e das forças de coalizão a abandonar território que antes parecia consolidado. Depois de meses rejeitando a possibilidade de uma guerra em solo, o presidente Barack Obama cogita enviar tropas para combater os extremistas no Iraque e na Síria. Pela primeira vez, o EI parece estar perdendo. Em dezembro, o Estado Islâmico teve sua primeira grande derrota, quando tropas iraquianas apoiadas pelos EUA os expulsaram da cidade de Ramadi. Na quarta-feira (3/2) passada, milícias curdas retomaram Kudila. As perdas financeiras com o território retomado pelos milicianos e pelos ataques aéreos - ambos empecilhos para a extração e venda “paralela” de petróleo que sustenta o grupo terrorista - já teve seu impacto na moral dos combatentes: segundo o analista do tesouro americano Daniel Glasser, o grupo já reduziu o soldo de seus soldados em Raqqa (a “capital” do EI) pela metade. As forças de coalizão, por sua vez, intensificam a ofensiva: Turquia e Arábia Saudita estão preparando forças para uma guerra em solo contra o “Daesh” - termo pejorativo em Árabe para o Estado Islâmico. Ao mesmo tempo que a notícia pode ser vista como uma vantagem estratégica contra o grupo, ela também vem para desestabilizar ainda mais a região, atraindo desconfiança do Irã, que está em conflito com a Arábia Saudita devido a guerra civil no Iêmen, e da Rússia - beirando a guerra com a Turquia devido ao abatimento de um jato em novembro passado, acusações mútuas de apoio ao EI, e financiarem lados opostos na guerra civil síria. Ante a derrota em seu “território natal”, os extremistas estão se deslocando para outro estado aleijado após a “primavera Árabe”: a Líbia.  Estima-se que ao menos 5000 combatentes do grupo estejam no país - o dobro do que era estimado em novembro passado. O país não tem um governo legitimo desde a morte do presidente Muamar al Ghadaffi, em 2011, após uma intervenção militar da OTAN. A tentativa de se estabelecer na Líbia vem na corrente de perdas significativas no Iêmen e no Afeganistão, com a morte do líder da ala iemenita do grupo, e a destruição da principal estação de rádio que mantinham no Afeganistão. Dentro do território líbio, o controle do EI se centra na cidade de Surt. A possibilidade dos terroristas se expandirem mais rapidamente que a possibilidade de formar um governo estável na região, e o acesso à bilhões de dólares potenciais em petróleo causam preocupação. Mas nem todos as mudanças no front são contra o Estado Islâmico. Em janeiro, com apoio da Rússia, o combalido governo Sírio conseguiu retomar território outrora controlado por rebeldes na província de Latakia, o principal bastião do setor Alawita, ao qual Assad pertence. Com a retomada, forças sírias se dirigem não ao território do EI, mas em direção a Turquia, já envolvida em um incidente diplomático com a Rússia após o abatimento de um jato russo em novembro. Nada disso significa, no entanto, que a paz esteja próxima.  Apenas nessa sexta-feira (5/2) foram feitos 16 ataques aéreos na Síria. Enquanto isso, as negociações de paz em Genebra entre os rebeldes e o governo de Assad, em uma tentativa de dar fim a guerra civil que já se estende por cinco anos, tem sido um fracasso. Rebeldes acusam o governo Assad e a Rússia de matar mais de 300 civis desde o início das negociações, no dia 29 de janeiro. As próxima rodada de negociações ficou para o dia 25 deste mês - e a permanência da guerra civil apenas favorece a recuperação do EI. Paradoxalmente, a possibilidade da derrocada do EI o torna mais perigoso. Perdendo terreno e recursos, o grupo e seus apoiadores estão mais dispostos a realizar novos atentados como os de Paris e San Bernardino no ano passado. Em um vídeo de propaganda divulgado semana passada, extremistas incentivavam seus apoiadores a migrarem para Raqqa enquanto elogia os atentados. No dia 1°, um atentado do EI deixou 70 mortos em Damasco. Na sexta-feira, autoridades americanas prenderam um apoiador do grupo em Michigan; Khalifa Abu-Rayyan, de 21 anos, planejava um atentado em uma igreja local e “fazer a jihad aqui”. Abu-Rayyan se arrependia de não ter como ir para a Síria “travar a jihad”. Ainda esta semana, autoridades alemãs alertaram para um problema adicional: segundo relatórios de inteligência, o EI estaria infiltrando militantes entre os refugiados sírios. A crise de refugiados já causou o deslocamento de mais de 4,5 milhões de pessoas, e foi respondida com uma intensa onda de xenofobia na Europa (com mais de 600 ataques contra abrigos de refugiados na Alemanha em 2015). O perigo real de extremistas entre os refugiados deve reforçar essa onda, responsável em grande parte pelos sentimentos de exclusão e alienação da minoria muçulmana na Europa. Sentimentos estes que o EI explora para agregar novos combatentes.
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