O Temor de um Trump Presidente

Colunistas

Por: Pedro Leal

quarta-feira, 01:23 - 24/02/2016

Pedro Leal
Para o choque (mas não surpresa) geral da comunidade internacional, a vitória de Donald Trump no caucaso de Nevada dá quase como certo: o magnata do ramo imobiliário deve ser o candidato republicano a presidência. A situação parece impossível: Trump não conta com o apoio de nenhum governador, senador ou congressista republicano. Até mesmo a Fox News - bastião do conservadorismo na mídia americana - parece ter renegado o empresário. E ainda assim, as chances são de que ele vá ser o candidato do partido a presidência. É uma perspectiva assustadora, e que revela muito sobre o eleitorado republicano. Trump é infame por insultar seus oponentes descaradamente. Atacou o senador republicano John McCain por ter sido capturado no Vietnã - guerra da qual Trump fugiu. Chamou mexicanos de estupradores e traficantes. Humilhou um repórter deficiente. Expressou o desejo de usar violência física contra manifestantes. Expulsou jornalistas de coletivas de imprensa por fazerem perguntas. Afirmou que criaria uma tropa para tirar imigrantes ilegais de suas casas. Propôs assassinar chefes de estado. A bizarrice de Trump é ainda maior quando se trata do Islã. Sob a alegação de “combater o terrorismo”, o empresário sugeriu recriar os antigos campos de internação (usados por Franklin Delano Roosevelt contra os japoneses) e jogar todos os árabes do país lá. Criticado, afirmou que “jamais criticaram FDR por isso”. Muito como foi feito antes da Segunda Guerra Mundial, propõe deportar todos os refugiados “que entraram no país”. Criou uma bizarra história sobre um general ter “acabado” com o terrorismo islâmico banhando balas em sangue de porco. Papagaiou as mentiras sobre muçulmanos em New Jersey celebrando o 11 de setembro e “áreas proibidas” em países europeus. Sem apresentar fontes, alegou que os refugiados (todos) tem “bandeiras do Estado Islâmico e pior nos seus celulares”. O homem é uma máquina de comentários preconceituosos com fontes dúbias. E a parte assustadora é que isso agrada ao eleitor médio do partido republicano. Quanto mais Trump choca o resto do país e principalmente do mundo, mais ele cresce entre o eleitorado republicano. O argumento? “Ele diz verdades que ninguém mais tem coragem de dizer”. Trump reforça os seus preconceitos - preconceitos cuja expressão pública não é mais aceita. Seus apoiadores não são melhores que ele, em matéria de comentários absurdos. Em novembro, com o aval do candidato, apoiadores de Trump agrediram um manifestante do movimento Black Lives Matter. Para seu eleitorado, árabes “sempre” estiveram em guerra com os EUA, e “se recusam” a pagar os custos das guerras “em nome deles”. Em entrevista na Fox News, uma apoiadora de Trump insultou a comentarista Tamara Holder por “ter peitos grandes”. Cada vez parece mais crível a ideia de que este homem seja o presidente dos EUA. Apesar de todas as bravatas e o discurso auto confiante, Trump admite não saber nada sobre a política nacional: sua desculpa para não apresentar propostas sólidas quanto ao país ou quanto as ações que propõe quanto a imigração, terrorismo, as guerras em que o país está envolvido, ou a economia. Ao invés disso, insiste que “quando for presidente” vai saber o que fazer. É um cenário assustador. As respostas de Trump a toda e qualquer pergunta quanto ao seu projeto de governo são simplórias e infantis: sua resposta quanto ao arsenal nuclear dos EUA se resume a “é muito importante” e “temos que encontrar alguém responsável e confiável”. Sua solução para a Síria se resume em “vou encontrar o General Macarthur e o General Patton do nosso tempo”. Seu plano para imigração é “expulsar eles”. Respostas prontas e vazias, infantis, até. As eleições americanas podem parecer irrelevantes para a política brasileira, mas seus efeitos dizem respeito ao globo. Na próxima semana deve se ter a certeza se Trump será ou não o candidato. Até lá, permanece a pergunta: como esse homem chegou tão longe em uma corrida por um cargo para o qual é obviamente inepto? Ironicamente, Trump acusa o atual presidente, o Democrata Barack Hussein Obama, de ser um “populista”. Poucos políticos americanos se encaixam nessa descrição tão bem quanto Donald Trump, com seu discurso inflamado, composto por senso comum, apelando ao “povão”. Não há um plano de governo ou um projeto de futuro: apenas a certeza de que “ele é um de nós”.
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