A destruição dos hospitais sírios e a lógica justificadora

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Por: Pedro Leal

quarta-feira, 04:21 - 17/02/2016

Pedro Leal
Nesta segunda-feira (16/2), um dos “danos colaterais” - eis aí um dos eufemismos mais cínicos já criados - mais comuns se repetiu: bombardeios russos destruíram cinco hospitais no norte da província de Aleppo, norte da Síria. Dois dos hospitais eram mantidos pela Unicef e outro pela ONG Médicos Sem Fronteiras, que denunciou os ataques. Foram 50 mortos nos ataques, que também destruíram duas escolas usadas como abrigo para famílias fugitivas da guerra. Com a destruição dos hospitais, cerca de 40 mil pessoas estão sem acesso a serviços de saúde, em uma zona de conflito em que esses serviços se fazem ainda mais importantes. A Rússia alega, no entanto, que os ataques tenham sido feitos por aviões americanos, embora apenas Moscou e Damasco estejam operando jatos na região atingida. O governo de Putin insiste que seus ataques aéreos não tem atingido civis, e que nenhum civil morreu desde o início dos bombardeamentos, em setembro passado - informação contestada pela Anistia Internacional e o Observatório Sírio de Direitos Humanos. Segundo o Exército Livre da Síria e outros grupos insurgentes, os bombardeios têm sido indiscriminados. Rebeldes sírios, em particular grupos étnicos turcos, e a Médicos Sem Fronteiras acusam a Rússia e o governo Sírio de deliberadamente atacar hospitais para forçar a evacuação da área. Segundo o presidente da Médicos sem Fronteiras, Mego Terzian, Assad e Putin têm tratado médicos operando em áreas controladas por rebeldes como criminosos. Em Janeiro, cinco clínicas mantidas pela organização foram bombardeadas pela coalização Russo-Síria, e no dia 9, outro hospital em Dara’a foi atingido por um ataque aéreo. .   Pouco após os bombardeios, milicianos curdos avançaram sobre o decrescente território mantido pela oposição. Com a investida, os curdos se aproximam da fronteira com a Turquia - que ameaça uma “resposta severa” se os curdos continuarem se movendo em direção ao país. O principal grupo curdo em atividade na Síria, a PKK (Parti Karkerani Kurdistan, ou Partido dos Trabalhadores do Curdistão) é visto como um grupo terrorista pela Turquia. O mesmo vale para a YPG (Yekineyen Parastina Gel, ou Unidades de Defesa do Povo). A tomada de território pelos Curdos também causou tensão entre os diferentes grupos rebeldes na Síria e movimentos árabes acusam os curdos de se aproveitarem da tensão no país para conquistar território na fronteira com a Turquia, em conluio com Assad e a Rússia. A acusação ameaça gerar um cisma dentro de uma das maiores forças de oposição no país, a QSD (Quwwat Surya al-Dimuqratya, ou Forças Democráticas da Síria), conforme tensões étnicas e a suspeita de traição dos Curdos ameaçam a integridade do grupo, com mais de 40 mil soldados. Ao mesmo tempo, essa mudança no front cortou todas as linhas de suprimentos para Aleppo, bloqueando a ajuda humanitária para os civis dentro de território da oposição. Como de costume em zonas de conflito, em meio aos jogos de poder quem mais sofre é a população não combatente, agora trancada em Aleppo da mesma maneira que os “súditos-reféns” do Estado Islâmico estão em Raqqah: com alimento minguante, sem atendimento médico, e sem meios de fuga. O cessar fogo entre Assad e os rebeldes, proposto nas negociações de paz em Genebra e que deveria por um fim a Guerra Civil que já se estende por cinco anos, não deve diminuir as tensões, e para o analista de direitos humanos sírio Hossam Abouzahr, não deve frear os bombardeios russos. Não haveria motivo para Assad e Putin não aproveitarem o cessar fogo para eliminar a oposição de uma vez, alega Abouzahr, por mais que por ora tolerem as milícias avançando em direção a Turquia. Essa avaliação foi confirmada pelo ministério do Exterior da Rússia, que declarou nesta segunda-feira que não cessaria os ataques contra os rebeldes durante um cessar fogo, pois “são terroristas”. Assad igualmente ignorou qualquer possibilidade de cessar fogo, afirmando que nada impediria suas forças no combate a qualquer grupo que ele julgasse como “terrorista”. Do outro lado do oceano, na segurança dos países ocidentais, outra tendência se revelou. Muitas das vozes que condenaram, com razão, “danos colaterais” como o do Hospital de Kunduz, no Afeganistão, em outubro passado, ou em Saada, Iêmen, no mesmo mês, expressaram apoio pela operação russa. A lógica nefasta é a mesma que foi usada para apoiar os ataques do governo Israelense a escolas e hospitais da ONU em Gaza, em 2014: são ações anti-terrorismo, e “os hospitais abrigavam terroristas”. Mas neste caso, ela se combinou com uma forma peculiar de cegueira política: a ideia já discutida de que “o inimigo de meu inimigo é meu amigo”. A defesa aos atos de Putin e Assad é mais comum entre quem vê o governo russo como “oposição ao imperialismo americano”. Preso a mesma cegueira ideológica que criticam na direita, qualquer erro de Moscou só pode ser ou mentira, ou secretamente certa. Assim, o ataque indiscriminado a todas as forças de oposição por parte da coalizão Russía-Síria é visto como positiva por muitos comentaristas por esta mesma ótica. Como alguns dos movimentos contra Assad degeneraram no Estado Islâmico, alguns membros de outras milícias debandaram para o EI, e outros grupos vieram a compor a frente Al Nusra (uma célula da Al Qaeda), logicamente, os rebeldes e o EI devem ter o mesmo tratamento. Outros, por sua vez, optaram por simplesmente ignorar os eventos e as denúncias, já recorrentes, como fabricação americana. Tomando como fonte única a agência de notícias russa Russia Today e seu portal brasileiro SputnikNews, a sua versão da história é que os EUA deliberadamente bombardearam os hospitais para que as ONGs envolvidas usassem a destruição para caluniar a Rússia, em uma gigantesca conspiração. O discurso da Rússia e de Assad quanto ao cessar fogo, aliado ao tipo de apoio que tem recebido de opinadores ocidentais (mais preocupados em apoiar “a oposição ao imperialismo” do que ver o que de fato ocorre) explica bem a aparente incongruência. Putin e Assad conseguem manter a ideia de que estão apenas atacando terroristas e que nenhum civil morreu em seus ataques, porque na definição operacional que usam, seus alvos são terroristas: se são terroristas, têm que ser bombardeados, e se foram bombardeados, é porque eram terroristas. É a mesma lógica tão comum do “bandido bom é bandido morto” e “ninguém apanha de graça”. É uma lógica circular, onde a ação sempre será vista como justa - pois afinal, o argumento se auto justifica. É o raciocínio que sustentou atrocidades em todas as guerras: a de que o inimigo merece aquele horror, e se não merece, secretamente merecia. Nisso surge um paradoxo: se os ataques foram russos, são certos e justos. Se não foram, passam a ser execráveis - ao menos na mentalidade de quem vê na Rússia o heroísmo.
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