A reforma política não aconteceu. Os caciques, ao contrário, fizeram tudo o que podiam para dificultar a renovação. A ideia era manter tudo como estava.  Mas faltou combinar com o eleitor.

A eleição deste ano trouxe a disparada de desconhecidos até domingo em estados importantes, como Santa Catarina, indicando não só uma vitória pessoal de Jair Bolsonaro, mas configurando uma expressão avassaladora do voto de protesto, que também pode ser visto na lista dos candidatos a deputado e senador mais bem colocados.

Os partidos que se apegaram a fórmulas convencionais, como o PSDB, ficaram a ver navios. E o PT por muito pouco não foi derrotado já no primeiro turno. Em Santa Catarina, o MDB, que há décadas ditava os rumos da política estadual, foi mandado para o banco.

O quanto o resultado de domingo será capaz de "quebrar o sistema", expressão muito utilizada por Bolsonaro, é talvez a grande interrogação a partir de agora.  É previsível que, vitorioso, Bolsonaro vá estimular uma forma nova de relacionamento apostando na força que associou-se a seu nome em todo o país. Se conseguirá, o tempo mostrará.

O 7 de outubro destronou oligarquias políticas que vinham se mantendo no poder desde a redemocratização do Brasil.  Não foi possível “estancar a sangria” como os caciques esperavam, mas apesar disso, 33 investigados pela Lava Jato ser reelegeram.

Salvaram-se figuras como Renan Calheiros, Jader Barbalho, Ciro Nogueira e Eduardo Braga. Mas nomes como Dilma Rousseff, Romero Jucá, Eunício Oliveira e Edson Lobão, estão fora.

A Câmara dos Deputados terá a partir de janeiro o maior número de deputados federais estreantes dos últimos 20 anos, entre eles, Carlos Chiodini e Fabio Schiochet.

Foram vitoriosos 243 parlamentares que nunca tinham passado pela casa legislativa. O número representa 47,3% das 513 cadeiras disponíveis.

O Senado também teve um dos maiores índices de renovação de sua história. Das 54 cadeiras em disputa este ano, apenas oito serão ocupadas por senadores reeleitos.

O eleitor fez suas apostas, escolheu a virada de mesa e mostrou que não estava alheio ao processo. A velha política foi ferida de morte. O que virá no lugar dela é a segunda interrogação que será respondida com o tempo.

Corria por fora e chegou

Na coluna do fim de semana, escrevi que Fabio Schiochet (PSL) estava entre os candidatos que corriam por fora na disputa para uma vaga na Câmara. O que nem os mais otimistas esperavam era uma votação tão expressiva. Desconhecido do eleitor, fez quase 90 mil votos.

Foi o mais votado em Jaraguá do Sul, com 21.721 sufrágios. Foi beneficiado pelo tsunami Bolsonaro. Ontem, durante visita à sede do OCP, Schiochet conversou com o presidente da Rede, Walter Janssen Neto.

Disse que vinha trabalhando desde março e que o resultado das urnas traz responsabilidade de muito trabalho. Será um dos coordenadores da campanha em segundo turno do Comandante Moisés e de Jair Bolsonaro.

Composição de forças: PSL cresce

O PSL de Jair Bolsonaro terá a segunda maior bancada da Câmara, com 51 deputados. Elegeu apenas um em 2014 e atualmente tem 8. O PT será o partido com maior bancada, com 57 deputados (tinham sido eleitos 70 em 2014).

PP vem em terceiro, com 37 eleitos, e o MDB agora é apenas o quarto partido, com 33 eleitos. O PSDB foi superado por PR, PSD e PSB e terá apenas 29 deputados. O Novo conseguiu eleger 8 deputados, por São Paulo (3), Minas Gerais (2), Rio de Janeiro (1), Rio Grande do Sul (1) e Santa Catarina (1).

Faltou pouco para o terceiro

Candidato pela primeira vez, Leandro Schömockel Gonçalves raspou na trave. Quase garantiu a terceira cadeira na Câmara Federal para região. Perdeu a vaga por uma diferença de 4.278 votos. Leandro ficou como primeiro suplente do partido Novo, com 23.144 votos sufrágios.

Onda conservadora

Uma das vantagens que Jair Bolsonaro terá no segundo turno contra Fernando Haddad será o fato de que as urnas mostraram a força do voto conservador no Brasil. Em Santa Catarina foi ainda mais forte.

O tsunami garantiu a ida do Comandante Moises para o segundo turno, deixando o MDB de Mauro Mariani de fora. E Lucas Esmeraldino por pouco não conseguiu uma vaga ao Senado.

Está fora

No calor do momento, Mauro Mariani (MDB) anunciou ainda no domingo  a saída da vida pública. Ao reconhecer a derrota para Merisio e Moisés, afirmou que já tinha em mente que essa seria a última eleição.

Nunca antes na história

Considerando a história, a possibilidade de uma virada no segundo turno é improvável. Nunca um candidato que venceu no primeiro turno acabou derrotado no segundo.

Fernando Collor em 1989, Lula em 2002 e 2006 e Dilma Rousseff em 2010 e 2014, consolidaram sua vitória após abrir vantagem no primeiro turno.

Fernando Henrique Cardoso ganhou em 1994 e 1998 sem necessidade de nova eleição. No primeiro turno de 2018, Jair Bolsonaro tem cerca de 18 milhões de votos de vantagem sobre Fernando Haddad. É muita diferença.

Aumenta participação das mulheres

O número de mulheres eleitas para o Senado se manteve nas eleições deste ano sem alteração, sete foram eleitas senadoras. Elas representam 13% dos eleitos para o cargo. Já na Câmara dos Deputados, houve um aumento de 51% no número de mulheres eleitas em relação a 2014.

O número passou de 51 para 77 deputadas neste ano. Isso quer dizer que a nova Câmara vai ter 15% de mulheres na sua composição. Considerando os deputados estaduais, as mulheres são 15% dos eleitos. Foram 161 deputadas, um aumento de 35% em relação a 2014.

Em Santa Catarina, das 40 cadeiras em disputa para Assembleia Legislativa, cinco foram conquistadas por mulheres, em 2014, foram quatro.

Bolsonaro x Haddad em SC

Santa Catarina, como era esperado, foi o Estado que proporcionalmente mais rendeu votos a Jair Bolsonaro. Foram 65,82% dos votos válidos. E o candidato venceu em 262 municípios catarinenses, equivalente a 88,8% do total.

Os resultados mais expressivos foram registrados em Treze de Maio (83,89%), Ascurra (81,32%), Botuverá (80,93%), São Martinho (80,77%), Morro Grande (80,26%) e Rio Fortuna (80,26%).

Em Jaraguá do Sul, Bolsonaro fez 72,38% dos votos. Na outra ponta, o candidato do PT, Fernando Haddad, que obteve 15,13% da votação em Santa Catarina, venceu em 33 municípios.

 

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