"Você sabe com quem está falando?"
"Você sabe com quem está falando?"

Certamente, dado ao nosso Alzheimer social, a maioria dos brasileiros já esqueceu o ultrajante caso de abuso de autoridade, protagonizado pelo desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo, Eduardo A. P. R. Siqueira, ocorrido em 18 de julho deste ano. Mas eu não esqueço. Acompanharei o processo, mesmo sabendo que poderá terminar em pizza. E se assim for, escreverei sobre essa pizza. O fato é que, graças a imprensa atenta, o Brasil conheceu essa “persona non grata”.

No entanto, o trabalho não se encerrou. Essa mesma imprensa deve cobrar e mostrar o desfecho, informando a população. A atitude do elemento Siqueira é a personificação do que herdamos do ‘luso-colonialismo’, das estruturas hierarquizadas moldadas nas capitanias hereditárias, no regime escravocrata, nos sistemas ditatoriais. A índole rasa desse Siqueira absolutista, é o produto dessa herança resistente, convertida em coronelismo e nepotismo político tardios.

Essa erva daninha vinga e se reproduz com facilidade e segurança em terras tupiniquins, fertilizadas com abundante foro privilegiado. Culturalmente, nossa passividade diante de um “você sabe com quem está falando?”, é o intuitivo recuo e emudecimento. O populês “broxada”. Em democracias consolidadas como Estados Unidos, essa egocêntrica indagação teria a imediata resposta: “quem você pensa que é?”. Infelizmente não herdamos essa reação e, com isso, seguimos “broxando”, engolindo a dignidade e legitimando as “carteiradas”.

Este Siqueira, deus terreno entorpecido pelo poder e soberba, é o sujeito antagônico ao Estado Democrático de Direito. Sua pequenez ao se auto proclamar, revela seu rasteiro caráter e superficialidade cognitiva. Este padrão de comportamento não é exclusividade da esfera pública, embora mais explícito nesse meio. Trata-se, em essência, de uma patologia social, que classifico como “síndrome do egocentrismo”.

Ela acomete os que desconhecem a dualidade hamletiana: “ser ou não ser, eis a questão”. Estes são os que são sem ser, querendo ser o que não são. Ou parafraseando Lao-Tsé: “aquele que não fala é; aquele que fala, não é. Portanto, Siqueira, “quem você pensa que é?”