A pandemia fez o colorido dos guarda-sóis esmaecer. Por conta de minha ancestralidade, tenho uma ligação muito forte com o mar. No entanto, minha dosagem de sangue açoriano nunca veria o mar aos olhos lusitanos de Fernando Pessoa. Tive certeza disso quando armava meu guarda-sol num local da praia bem isolado da muvuca. Além de contemplar o mar, tenho a mania de observar as vidas sob guarda-sóis.

Sentei-me relaxadamente em minha cadeira, ‘estourei uma ampola gelada’, que faz aquele som “tchsss”, e me dei conta do colorido vazio. Cadê as vidas sob guarda-sóis? Subitamente, avisto um casal, meia idade, se aproximando. Eles, telepaticamente, armaram seu guarda-sol a uns 10 metros de distância. Éramos dois guarda-sóis numa praia deserta. Passei a observar suas vidas sob aquele guarda-sol vermelho e verde. Acomodaram-se em suas cadeiras e passaram a contemplar o mar sem trocar uma palavra.

Os minutos se passaram, sem nenhum diálogo. Estourei mais uma ampola na expectativa de que o “tchsss” pudesse distraí-los. Nada. Duas estatuas humanas hipnotizadas pela imensidão maravilhosa do mar. Aquela situação estava instigando minha curiosidade. Improvisei uma caminhada, pois assim, eu observaria o clima mais de perto e, quem sabe, interromperia aquela dupla contemplação. Ao passar em frente, a uns três metros de distância, dirigi um esguelho olhar por trás das lentes escuras, sem virar a cabeça. Me percebi desapercebido, totalmente.

Após uns 40 minutos de caminhada, ao retornar, lá permaneciam as duas esculturas de carne e osso. Não resisti e resolvi cumprimenta-los. Para minha surpresa, eles acenaram. Dei uma guinada na direção, me aproximei e ofereci uma ampola gelada. Perguntei de onde eram. Somos do mar de Pessoa, responderam. Do mar? retruquei. Sim, na verdade, o mar é que mora na gente, disse ela, começando a recitar:

“Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães choraram, quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar, para que fosses nosso, ó mar! Valeu a pena? Tudo vale a pena se a alma não é pequena. Quem quer passar além do Bojador, tem que passar além da dor. Deus ao mar o perigo e o abismo deu, mas nele é que espelhou o céu.” Somos de Açores. Valeu a pena conhecê-los, disse eu, e brindamos com um “tchsss”.