Como se não tivéssemos coisas boas para copiar dos Estados Unidos, uma de suas principais mazelas parece ecoar no Brasil. Assistimos perplexos o resultado do insano e premeditado massacre efetuado por dois jovens, na Escola Estadual Prof. Raul Brasil, em Suzano (SP), na última quarta-feira (13), resultando em 10 mortos e 11 feridos. Não obstante a enfadonha polarização das redes sociais, buscando politizar de forma rasa o fato, a verdade é que barbáries como essa, inflamam a velha retórica acerca das armas.

Persiste a recorrente indagação: o Estado deve armar ou desarmar o cidadão? Naturalmente as opiniões são divididas e fundamentadas entre razoáveis, irracionais e patéticas. Vale dizer que a mais estúpida, e recorrente, é esta: “oras, se nos EUA pode, porque no Brasil não pode?”.

Ignoramos que aquela nação é um ponto fora da curva. Enquanto a maioria dos países restringe as armas, nos EUA duas forças implacáveis asseguram essa exceção: i) o lobby da NRA (National Rifle Association), e ii) a secular cultura da arma. Essas duas forças são mais poderosas que o presidente e os legisladores juntos.

Por aqui, em tese, o novo decreto facilita a ‘posse’ e não o ‘porte’ da arma. Mas a provocação que faço é: o Estado possui estrutura e competência para fiscalizar o comportamento de quem a possui?

Particularmente entendo que o fato de uma população estar armada ou desarmada não determina, necessariamente, mais violência ou menos. Minha concepção é de que, em essência, a violência não é produzida pela arma, mas, antes disso, pelo comportamento, cultura e atitude do detentor desta.

Não vejo sentido em insistir na superficial retórica armar ou desarmar. Compactuo com um amplo e profundo debate, seguido de políticas públicas, acerca das causas e ambientes da violência. Arma não configura causa de violência, ela é tão somente o instrumento.

Como fenômeno antropológico complexo, e um dos prazeres mais primitivos da espécie humana, a violência vale-se de qualquer meio ou instrumento para se consumar.

O ‘modus operandi’ em Suzano comprova. Então, penso que não podemos nos nortear pelo poder midiático para fundamentar uma opinião sobre armas. Me parece prudente, antes disso, entender o que desencadeia a violência.

Proponho algumas reflexões:

i) será que o desenvolvimento científico e tecnológico da moderna sociedade, tem melhorado o padrão de vida do homem, extinguindo seu mal-estar existencial?

ii) Será que essa mesma sociedade está tão provida de ‘motivos’ para viver como de ‘meios’?

iii) Será que mazelas como desigualdade, crise moral, corrupção, guerras, terrorismo, desemprego, fome, insegurança, xenofobia, homofobia, extremismos, inoperância da lei, educação deficiente...,adversidades estas, geradoras de tantas paranoias e insanidades, não deveriam preceder o debate de armar ou desarmar?

Pelo menos, em terra tupiniquim, debater armas antes dessas questões, é um tiro saindo pela culatra.