Sou o Gabiroba pertencente a flora nacional. Os humanos brasileiros estabeleceram o dia 21 de setembro para nos homenagear. Dizem que é dedicado à conscientização para a importância de preservarem minha espécie. Como se eu acreditasse nesses inconsequentes! Oras, definiram esse dia tão somente para lembrar o início da primavera. Dia esse, que se repete todo ano e a preservação, que a mim interessa, nunca vi. Por sorte ainda não fui vitimado, mas vejo o fogo e as motosserras se intensificando em minha volta. Não fosse nosso pequeno exército de avatares, que os bípedes acéfalos denominam de ambientalistas, eu já teria desaparecido.

Brotei em terra fértil, integrado ao manto da biodiversidade, sob proteção de avatares. Criei raízes profundas, desabrochei, ramifiquei, e sigo crescendo. Como qualquer outra árvore, dedico minha existência à continuidade da vida no planeta. Produzo oxigênio por meio do processo da fotossíntese; controlo a umidade relativa do ar por intermédio da evapotranspiração; proporciono moradia, alimento e medicamento a muitas espécies. Contudo, o único animal que insiste em me destruir é o retardado do homem.

Como se não bastasse, esses bípedes nos segregam. Eu, por exemplo, me considero árvore como qualquer outra, mas, para esses insensíveis, minha linhagem é inferior. Sou só um banal Gabiroba acuado em meio a uma selva violentada e angustiada. Ao bel-prazer, dentre minha espécie, selecionaram algumas, como representantes regionais desse imenso território brasileiro. Por isso, até recebem relativo cuidado. Vejam só o cinismo: para a região Norte, escolheram como símbolo aquela mastodôntica e abrasiva Castanheira. A exibida Carnaúba ficou com o título do Nordeste. O egocêntrico Ipê amarelo virou símbolo no Centro-Oeste. Elegeram o arrogante Pau-brasil para representar o Sudeste. Por fim, coube à gélida Araucária o símbolo da região Sul. Porquê só essas?

Até pensam elas que eu, o Gabiroba, fiquei enciumado por não ser símbolo de nada. Mas digo que não se trata de ciúmes, e sim, de desesperança. A mim e à todas as demais, restou o símbolo da degradante devastação. Nos coube a comenda do desequilíbrio ambiental. A insígnia do desenfreado e insustentável progresso. A estampa da densa fumaça derivada da insensatez política. Um horizonte sóbrio.
Então senhores bípedes, não há o que celebrar nesse 21 de setembro. Nos basta seu respeito. Plante-nos em sua consciência e em sua terra.