Como observador, desprendido da arena político ideológica extremista, mas criticamente inserido no campo da comunicação fática, percebo uma fervura transbordando o ‘tacho da humanidade’, alimentada pela banalização da mentira. Não me fundamento apenas no contexto tupiniquim, embora, por aqui, o borbulhar emita mais vapor. Sinto-me numa inquietante dúvida: será que esse fenômeno é efeito de uma transição para um novo iluminismo, ou retorno ao obscurantismo? A noite passada dormi com essa dúvida e acabei tendo um sonho.

No café da manhã disse à família que teria tido um inusitado sonho. Minha filha, de bate pronto respondeu: “e há sonho que não seja inusitado pai...dãããr?” Eu disse: tá, você venceu. E passei a relatar o sonho, que talvez Freud pudesse explicar. Cenas lampejantes de alguém que circundava meu condomínio em meio a madrugada. Eu podia ouvir os paços ecoando no pátio. Vagarosamente, sem acender a luz, fui à janela e arredei uma frestinha da cortina. Esperei sua próxima volta. Quando o avistei, ele subitamente dirigiu o olhar sisudo em minha janela, e assim permaneceu.

Um homem corpulento, cabelo de milho, meio arcado dado o tamanho da cabeça. Fiquei hipnotizado, sequer piscava. Será que ele está me vendo? Sim, ele tinha me flagrado. Agora, além de não piscar, não passava uma agulha...Notei que em sua camiseta, havia uma inscrição. Foquei o olhar na palavra, em caixa alta, e decifrei: GEPPETTO. Seria o nome dele? Então ouvi o som do grande portão se abrindo e uma multidão entrando no pátio e bradando em coro: “pinoquiamento da ciência”. Eram todos bonecos de pau narigudos.

O suposto Geppetto se dirigiu à multidão e sentenciou: precisamos ampliar nosso reino de pinóquios. Invadam o prédio. Confisquem todas as estantes de livros, revistas e jornais. Poupem apenas os que dispõem de TVs sem assinaturas. Tirem uma foto de cada inquilino, destacando o perfil do nariz. Minutos depois, alguém bateu à porta de forma estridente. Em pânico, observei pelo olho mágico um pontiagudo nariz e dois irados olhos.

Será que ele me viu? Sim, ele me viu. Abri a porta e o cumprimentei educadamente. Rispidamente ele observou meu semblante e pronunciou: se seu nariz não é comprido, cadê sua biblioteca? Desesperado, apontei o quarto do meio. Ele entrou e eu acordei do sonho. Enquanto conferia meu nariz, fui inundado por uma sensação de extrema liberdade.