De tudo que já presenciei até o momento, a imagem indelével em minha mente, é a cidade italiana de Baranzate, na região da Lombardia, com seu complexo de rodovias e elevados tortuosos, dramaticamente desertos. Aquela imagem se tornou, para mim, o sinônimo de coronavírus e a tradução mais real da dimensão dessa pandemia que nos assola. O vazio do que era o intenso trânsito do cotidiano, que nos remete à confusão, estresse, acidentes, poluição e mortes, subitamente nos recobrou que aquilo era vida fluindo.

Cada vez mais me convenço de nossa condição peculiar e efêmera enquanto espécie humana. O drama da clausura que ora vivemos, abruptamente nos recobra que somos gregários por essência, destinados a viver em sociedade. Até determinado estágio da civilização, éramos submissos à ordem da natureza. Acontece que, em certa altura, descobrimos que poderíamos inverter a ordem, assumindo o comando de tudo. Passamos a invadir e interferir, incondicionalmente, em espaços que não nos pertence, acreditando ser a ordem natural do sistema. Então, somos surpreendidos com uma mensagem: “vocês não são os donos do mundo”.

Talvez, o que possamos herdar dessa pandemia, é a consciência de que na natureza há uma variedade de exemplos sobre o princípio da agregação e harmonia, que a normalidade do cotidiano nos faz ‘passar batido’: as ínfimas partículas que se atraem para nos mostrar a realidade material que nos cerca; a imensidão de gotículas d’água que resultam em chuvas para formarem os lagos, mares e oceanos; as células que, uma vez agrupadas, moldam nossa estrutura corporal; e os animais e vegetais que, por instinto e ordem própria, se agregam para preservação da espécie. É essa força de agregação e harmonia, a verdadeira dona do mundo.

Portanto, por paradoxal que possa parecer, a realidade nos mostra que um minúsculo organismo invadiu nosso espaço e nos ordena a clausura para que aprendamos a conviver. Patético? Irônico? Impactante? Ou dramático?