Se hoje fosse dada a qualquer cidadão a tarefa de representar, em um pedaço de papel, qualquer imagem que pudesse traduzir o ‘jeitinho brasileiro’, certamente teríamos a maioria desenhando um puxadinho. Já morei de aluguel em puxadinho de madeira. Havia vários quartos, cada qual com sua porta que dava direto para rua.

Eu chamava de ‘solitária sem crime’. Não havia ventilador, quem dera ar condicionado. Na verdade, não havia quase nada, tampouco risco de morte. Mas não deixava de ser um puxadinho, embora sem gambiarras. Puxadinho é o retrato mais fiel do ‘jeitinho brasileiro’. Se jeitinho é sinônimo de tapeação, puxadinho é antônimo de planejamento.

Coube a instituição de futebol da nação rubro negra, aliada a um poder público conivente, o degradante e desonroso destino de comprovar que puxadinho é a cara de um país sem Habite-se. De um país onde o jeitinho suplanta o Alvará.

Entretanto, é oportuno se dizer que esse gol contra que lhe valeu o troféu “Mustela Putorius Furo”, não é uma exclusividade do Flamengo. Aquilo foi um lance corriqueiro e generalizado, impregnado na cultura tupiniquim.

Alguns mais avisados me retrucarão: mas há uma Lei Federal que regulamenta os puxadinhos, ‘né não’? Realmente, a Lei 13.465/2017 foi criada para este fim, e é justamente aqui que reside a essência de nosso problema. No Brasil as leis são feitas para não serem cumpridas. Invertemos o postulado de Cícero. Por aqui, o homem mais livre ‘não é’ o escravo da lei.

Volto a inquietante indagação de minha última coluna: Aquilo foi uma tragédia? Não, o CT do Flamengo também não foi, em essência, uma tragédia. Foi um bárbaro acidente que ceifou precocemente a vida de dez adolescentes cheios de sonhos.

A tragédia, como bem representada nos clássicos personagens do bardo Shakespeare, e como bem identificadas por Nietzsche, reside nas profundezas da condição humana, tão transparentes no drama que assistimos: A negligência, a ambição, o egoísmo, a avareza, a insensatez, a imoralidade, o poder incondicional...o jeitinho. Eis onde paira e o que configura a tragédia humana materializada no ultrajante acidente do puxadinho carioca.

Por hora nos resta duvidar se haverá condenação e punição aos irresponsáveis. Mesmo que houver, será impossível encontrarmos as respostas que realmente queremos. As respostas que buscamos resgatar das cinzas do ninho do urubu, coabitam o arcabouço de natureza dual e antagônica que orientam as ações humanas.

Portanto, não as encontraremos enquanto persistir a lógica de desenvolvimento regido por valores materiais reajustáveis, e a vida como valor depreciável. É aqui que se revela a tragédia geradora de tantas destruições.

Novamente, parafraseando o sociólogo pernambucano Josué de Castro, com grifo meu, “vamos criar um satélite de ideias, fincar parabólicas nos CTs do futebol brasileiro e mostrar a cara do Brasil”.