No meu tempo de ensino médio o modelo ainda era fortemente jesuítico. Deixei de aprender muitas coisas devido a pedagogia da decoreba, além dos conteúdos chatos e inúteis. Ou seja, decorei muito, aprendi pouco e pensei menos ainda. Venci o ensino médio com a sensação de incapacidade. Mas me libertei da ‘caverna platônica’ graças aos cursos superiores e minha própria biblioteca.

Hoje, sinto satisfação em saber que, embora a velocidade disruptiva do mundo seja muito maior do que a da escola, nossa Santa Catarina saiu na frente com um Novo Ensino Médio compatível com os novos tempos. Mas nem por isso me furtarei de um olhar retrospectivo. Quero ilustrar o que já vivemos, o que já caminhamos, e o muito que há para avançar, no universo educacional. Para isso, me aproprio de uma experiência relatada pelo saudoso escritor, educador, psicanalista, teólogo e pastor presbiteriano, Rubem Alves, em sua obra, “Ostra Feliz não faz pérola.”

Foi com o que melhor me deparei. Narra ele que enquanto sua neta lia um livro de biologia, notou que ela não expressava entusiasmo, nem nada que parecesse com curiosidade. Na verdade, era tédio. E ele bem sabia o que era aquilo, pois há textos que reduzem o leitor a uma panqueca que se arrasta pelo chão. Resolve perguntar o que a neta estava lendo, ao que ela lhe mostra um parágrafo com o dedo. Eis o conteúdo:

“Além da catálase, existem nos peroxissomos enzimas que participam da degradação de outras substâncias tóxicas, como o etanol e certos radicais livres. Células vegetais possuem glioxissomos, peroxissomos especializados e relacionados com a conversão das reservas de lipídios em carboidratos. O citosol (ou hialoplasma) é um coloide... No citosol das células eucarióticas, existe um citoesqueleto constituído, fundamentalmente, por microfilamentos e microtúbulos, responsáveis pela ancoragem de organoides... Os microtúbulos têm paredes formadas por moléculas de tubulina.”

Bah! Revela ainda certas palavras que nunca lera: “retículo sarcoplasmático, pinocitose, fagossomo, fragmoplasto, e o padrão do axonema constituído por 9+2, uma referência aos 9 pares de microtúbulos em torno de um par central.” Supõe ele que essa última afirmação tem a ver com o rabo do espermatozoide. Não consegue imaginar a neta conversando sobre essas palavras com as amigas ou seu namorado. Certamente o namorado só se interessaria pelo rabo do espermatozoide, deduz. Então se pergunta o que o professor, que aplicara esse texto, imaginava que os adolescentes fariam com ele? Por fim, conta que lera o texto para um erudito professor de biologia e sua resposta foi: “não entendi nada.”