Hoje apresento aos meus leitores uma crônica de bar. Não é uma verdade. Também não é uma mentira. Você já imaginou um mundo onde reinasse somente a verdade? ‘Imagino que você tenha imaginado o que eu imaginei’: que se assim fosse, esse mundo seria uma mentira.

Quem já não se deparou com uma verdade absurda ou insuportável? daquelas que leva você a se indagar: isso só pode ser uma mentira? Por outro lado, quem já não pregou uma mentira exaltante ou libertadora? Daquelas que até você a absorva como verdade? Esta dualidade, embora sempre nos coloque num dilema moral, ela é necessária para enfrentarmos a vida.

Não tratarei aqui, das verdades implacáveis nem das mentiras danosas, mas das que temperam a vida e tornam o mundo vivível. Isso mesmo, vivível do verbo viver. Por isso, nesse mundo condimentado com verdades e mentiras, é possível classificar os indivíduos em três perfis: num extremo, os que se governam na verdade; no outro, os que se orientam nas mentiras; e no centro, os que inventam verdades.

Antes de seguir admitamos que, inventar uma verdade não é mentir. Isto vem ao encontro de um dos aforismos de Nietzsche de que, “cada pessoa tem que escolher quanta verdade consegue suportar”.

Se nos fundamentarmos, nessa premissa e dividirmos os terráqueos em três grandes classes: i) os religiosos conservadores; ii) os políticos; iii) e os comuns, teríamos, em tese, o primeiro grupo com considerável carga de verdade; o segundo, com vultosa carga de mentira e o terceiro, como inventores da verdade.

Mas isso não se configuraria, necessariamente, uma consistente verdade. Também não seria uma pura mentira. Logo, o que temos aqui, é uma típica verdade inventada.
Proponho então, uma dose de realidade cômica para facilitar o entendimento e, assim, identificarmos cada perfil citado. Um bom exemplo ilustrativo é aquela frequente reunião de amigos, ou amigas, num ambiente descontraído. Elegemos o bar, o ambiente mais democrático do mundo.

Neste espaço, sempre há o indivíduo comprometido com a verdade implacável. Fala repetida e objetivamente o óbvio. É cartesiano, não foge da cota. Não toma mais do que uma cerveja para não comprometer a razão. Seu papo preferido é sobre trabalho. Se vangloria de ir embora cedo, e se despede da confraria, estendendo a mão a cada um. O Conselho Etílico o vê como ‘chato’.

Há também o autêntico mentiroso. É falador e investigador da vida alheia. Embora, nem todo falador seja mentiroso, todo mentiroso é pegajoso. Impõe seu discurso monólogo, para ter certeza de que sua mentira esteja sendo engolida. É o vulgo ‘mala’.

E por último, o inventor de verdades. Este é o participativo discreto. Não deixa ninguém sem resposta. Mesmo não dominando o tema, inventa fundamentos razoáveis. Se adapta fácil à ética do bar. Ele sabe que o bar é o fórum ideal para inventar verdades...como essa que você acaba de ler.