Nunca perdi da minha memória o pátio escolar, daqueles anos 1967-1975. O momento solene à Bandeira Nacional, com hino, marchas e declamações de poesias cívicas, era um ritual semanal curricular. Tudo desembocava no 7 de setembro que, para mim, era um momento em que o medo e civismo se fundiam em meu senso de brasilidade.

Daquelas tragicômicas lembranças, duas ainda permanecem nítidas em minha memória. Vamos à primeira: Semanalmente, a diretora, uma ortodoxa de corpo esquelético, cuja anatomia do rosto mais lembrava uma caninana, selecionava uma classe que seria encarregada das homenagens. Com semblante sisudo, portando aquele inseparável e repressor bastão, ela entrava na sala e decretava: “preciso de alguém que declame uma poesia”.

Certa feita, ao pronunciar a ordem, seu olhar viperino me atingiu em cheio. Eu, moleque arredio, lá dos confins da Gabiroba, naquele exato momento senti meus músculos esfíncteres me traírem. Para meu alívio, Didi, garoto forte, bochechas rosadas e cabeça avantajada, lá no fundo da sala, se apresentou: “eu só sei uma poesia, e é curtinha”. Sem inquiri-lo, a ditadora apenas decretou: “venha bem trajado amanhã”.

Chegado o momento, todos no pátio, em posição de sentido, Didi é anunciado. Eu sentia inveja daquele cabeçudinho se dirigindo, em passos determinados, para frente daqueles pelotões mirins, sob aqueles olhares castradores das ‘generalas’. Didi engatilhou o gogó, voltou-se para o Pavilhão Nacional, e com voz retumbante disparou aquilo que, em sua proeminente cabeça, seria uma breve poesia cívica: “jacaré foi no mercado, não sabia o que comprar; comprou uma cadeira para a vovó se sentar; a vovó se sentou, a cadeira se quebrou; jacaré chorou, chorou, do dinheiro que gastou”.

Agora, a segunda lembrança: Chegado o 7 de setembro, cabia ao papai o comando da sessão de tortura. Eu odiava aquele momento. Nunca me livrei do trauma daquele maldito toco de lenha no terreiro e aquela medonha máquina de cortar cabelo, manual, de Auschwitz, mal regulada, pelando minha cabeça. Eu detestava o dia da Pátria por dois motivos: i) o modelo do corte era sempre zero; ii) e aquele olhar burlesco da namoradinha para minha cabeça de catuto.

Mamãe caprichava com a minha estética. Papai esculhambava com meu visual. Embora amasse os dois, eu via na mamãe, o ‘sentido’ da Pátria, e no papai, o ‘dia’ da Pátria. Com o passar do tempo, fui me dando conta dessa dicotomia. Eu amava a Pátria, mas não via ‘sentido’ no ‘dia’ da Pátria. Hoje tenho a degradada impressão de que esse valor se inverteu na sociedade. O ‘sentido’ repousa, agora, no ‘dia’ da Pátria, por conta do feriado. Salve Pátria amada Brasil!