Deixar a segurança daquele interiorano lar e caminhar, descalço, por 5 quilômetros em estrada de barro, com destino ao primeiro dia de escola, foi o desafio mais temido, por mim enfrentado, aos 8 anos de idade. Do portão pra fora, senti um composto de curiosidade e confiança. Na medida que me aproximava da escola, foi se convertendo em apreensão. Ao entrar na sala, se transformou em pavor. Eu nunca tinha visto tanta gente. Tomei lugar, sozinho, em uma carteira com banco de dois espaços, ao fundo da sala. Torci para que ninguém tomasse assento comigo.

Meninas de um lado da sala, garotos do outro. A professora, magrela, alta, sisuda, saia na altura das canelas, na casa dos 30 anos, adentra a sala de aula e deposita seus materiais sobre uma mesa de verniz surrada. Eu, em minha timidez, dedo na boca, mas exímio observador, tentei localizar, entre os apetrechos dela, a tenebrosa palmatória tão comentada por minha ‘Santa mãe’. Os primeiros movimentos lineares e sequenciais, sendo traçados a giz, no quadro negro, não faziam o menor sentido pra mim, mas se tratavam do princípio elementar das letras do alfabeto.

A professora decreta: “quem cochichar sentará com menina”, o que significava um castigo beirando a sacrilégio. Toninho, cabeça rapada e pontuda, parecendo um catuto, mostrou-se o mais arruaceiro, sentando-se logo atrás de mim. Subitamente, a professora interrompe seus ‘hieróglifos pré-caligráficos’, vira-se para a classe e dirige um sinistro olhar enquanto imprime lentos passos em minha direção. Meu coração saiu pela boca. Ela passa por minha carteira e se posiciona logo atrás.

Ainda em estado de choque, ouço a sentença sendo proferida ao Toninho: “vá sentar-se com a Glorinha, agora”. Senti um misto de alívio com inveja. Glorinha, olhos azuis, cabelos curtinhos modelo Elis Regina, era a menina mais encantadora que meus olhos já tinham contemplado. Uma paixão infanto platônica já havia aflorado desde o primeiro olhar, não correspondido, no portão da escola. Eu não suportava o privilegiado castigo aplicado ao cabeça de catuto. Era a mim que a tal punição deveria ter sido imputada, e à ele a palmatória, ‘pensava com meus botões’.

Senti, pela primeira vez, o incontrolável e devastador ciúme. A escola desabou sobre mim. No dia seguinte, próximo ao portão da escola, estaciona um Gordini amarelo girassol que atraiu minha atenção pela exuberância do modelo. Glorinha sai de dentro, acompanhada do pai, um senhor baixinho, redondo igual seu Gordini, penteado à brilhantina, bigode fino, pitando um cigarro. Despacha Glorinha pronunciando uma única palavra, enquanto expele fumaça pelas narinas e boca: “comporte-se”. Esta cena me dilacera. Mostrou-me que a distância de realidades entre a amada e meu mundo mateiro era anos luz. Se no dia anterior a escola desabara sobre mim, agora foi o mundo que desabou. Nunca mais soube da Glorinha.