O quintal lá de casa era uma oficina de sonhos. Um caminhão carregado, uma patrola ou máquina de esteira, eram gigantes impressionantes e barulhentos. Mas eram do mundo real, e precisavam ser miniaturizados no espaço do quintal, para atender a necessidade de brincar. As minhas mais preciosas horas eram dedicadas a construir brinquedos. Quando havia pressa em brincar, a saída era recorrer aos ditos “brinquedos para o gasto”. Estes nasciam do improviso, sem muita engenharia.

Nessas situações, uma folha de ameixeira e um espinho de laranjeira viravam um cata-vento, que no meu imaginário, era uma hélice de avião prestes a decolar. De algumas palhas de milho, barro umedecido, um pedaço de barbante e penas de galinha, nascia uma peteca. Um pneu velho se transmutava em um veículo de verdade. Mas minha imaginação sempre se projetava para além do quintal. Como imitar as realidades lá de fora? Aqueles caminhões GMC, aquelas patrolas gigantes, aqueles tratores? Nessas ocasiões, os “brinquedos para o gasto” davam lugar aos engenheirados.

Latas, madeiras, borrachas, arames, barbantes, pregos e outros tantos objetos, eram matérias primas valiosíssimas. Rodelas serradas de troncos de árvores, viravam rodas de carrinhos. Carretéis de linha, um pedaço de vela, elástico e um palito de fósforo, resultavam em uma pequena engenhoca que se auto movia. Minha maior criação foi inspirada quando voltava da atafona com um saco de farinha amarrado ao bagageiro da bicicleta. Parei para observar aquela robusta máquina sobre esteiras em operação. Na cabine aquele semideus suado e de boné. Do corpo da máquina, erguia-se duas grandes hastes de metal paralelas, com roldanas na extremidade superior, por onde passavam cabos de aço que manobravam uma grande concha em várias direções.

Ansioso para chegar em casa, eu já ia projetando. Aquela lata Primor, cortada em diagonal, seria a concha da máquina. Um barrote de madeira de uns 20 centímetros, seria o corpo. Nas laterais, fixaria com pregos, as hastes feitas de dois finos sarrafos, medindo uns 40 centímetros. As roldanas na extremidade superior, seriam de carretéis vazios, da caixa de costuras da mamãe, que teriam como eixo, um lápis amarelo, por ser a cor das máquinas, e minha cor preferida. Assim, eu construía minha realidade em miniatura do mundo além do quintal. ‘Eram ensaios pra vida’.