Ontem à noite “eu tive um sonho de sonhador”. Sonhei que o mundo era uma grande orquestra sinfônica. Cada país com seus instrumentos, agrupavam-se de acordo com a produção peculiar dos sons, classificados em naipes orquestrais: cordas, madeiras, metais e percussão. Eu me via ansioso para ver qual seria o naipe do Brasil em meio a orquestra. Cheguei cedo ao teatro e busquei o melhor ângulo de visão na plateia. Soado o sinal do grande espetáculo, as luzes foram se apagando, o pano de boca se abrindo e o ambiente cenográfico se revelando. Lá estava a global orquestra de prontidão.

Mas seguiu-se um prolongado silêncio à espera do maestro. Já se ouvia cochichos de impaciência ecoando na plateia. O protagonista não aparecia. Então, a comando do spalla, a orquestra iniciou o usual compartilhamento de afinação dos instrumentos. Senti orgulho ao identificar, finalmente, em meio àquela planetária orquestra, o meu Brasil compondo o naipe das percussões. Lá estava a galera verde amarela com os seus rítmicos instrumentos: xilofone, prato, pandeiro, triângulo, zabumba, tímpano, guizo, maraca, marimba, gongo, agogô, bumbo, bongô, tamborim, afoxé... entre outros.

Subitamente, sem regência, a orquestra iniciou a execução da 5ª sinfonia de Beethoven em dó menor, a que o próprio autor definiu como: “o destino bate à porta”. A harmonia das cordas, madeiras e metais era perfeita. Então não tive dúvidas de que era Deus quem regia. Atentamente, eu esperava os momentos em que brilharia o naipe percussão, pois caberia a esse grupo, dar vibração à orquestra. Eu sabia que aquela “sinfonia do destino” pedia percussão nos quatro movimentos.

Mas não apareceu. Se manteve dessintonizada. Me apeguei à beleza da tristeza. Senti no primeiro movimento, as cordas expressarem um dramatismo extremo. O segundo, me remeteu a uma intensa marcha fúnebre. O luto e abatimento se revelaram no terceiro. E no quarto e último movimento, me vi triunfante em meio a pandemia que a muitos ceifava. Despertei melancólico por tamanha conexão com a realidade.